Não cansamos de nos surpreender e nos fascinar pelo poder e mistérios da Natureza

Tanzânia, África, nas proximidades da fronteira com o Quênia. Local da armadilha natural mais mortífera para os animais que ousam tocá-lo, o lago Natron. Esse lago não possui saída para o mar (é uma bacia endorreica). Ele encanta à distância por sua bela coloração vermelho-rosada ou vermelho profundo, dependendo da época do ano e da quantidade de algas que prosperam no local reagindo com o sal da água.
“… Não poderia deixar de fotografá-los. Ninguém sabe ao certo como eles morreram, mas parece que a natureza reflexiva extrema da superfície do lago os confundiu, e como pássaros que colidiram com vidraças, eles correram para dentro da bacia…”
Nick Brandt
Você poderia perguntar: “Mas o que raios têm a ver a cor do lago como sal e com as algas”?

Elementar, caro leitor! A cor deriva diretamente microalga marinha denominada Dunaliella Salina que ama o sal. Ela tem uma adaptação que permite que prolifere em meios com alta concentração de sal, produzindo um pigmento vermelho que absorve e utiliza a luz solar ara criar mais energia e deixa a água com essa tonalidade. Essa alga é considerada a comida mais densamente nutritiva do mundo. Além disso, por produzir grande quantidade de pigmento derivado de carotenoides, é muitíssimo utilizada em produtos cosméticos e suplementos dietéticos.

O Natron é um lago salino, cujo grau de alcalinidade da água (Ph) varia entre 9 e 10,5 e sua temperatura pode chegar a 60° C. Isso colabora para que os animais que nele caem e afundam, se calcifiquem. É muito cáustico, a ponto de queimar a pele da maioria dos animais que entram em contato com suas águas e ali não morrem.
Os sobreviventes:
Há que se saibam apenas pouquíssimas espécies animais que suportam a vida nesse local, algumas espécies de camarão e a tilápia alcalina (Alcolapia Alcalica), que é um peixe extremófilo adaptado à vida em condições adversas (como o local), e, em menor grau, os flamingos pequenos (Phoenicopterus minor) que aproveitam o período em que se formam no lago ilhas de sal para fazer seus ninhos, não parecem se importar com isso e migram dos lagos do leste africano, anualmente no período entre abril a junho, em quantidade próxima a 2, 5 milhões de aves para ali se reproduzirem.

Diferentemente das tilápias e camarões, os Flamingos ali permanecem apenas por alguns meses, o suficiente para que seus filhotes, que ainda não aprenderam a voar, tenham condições de suportar à pé uma jornada de centenas de quilômetros até seu próximo destino. Apesar de essas aves não morrerem ao ingerir a água salgada e alcalina do lago e suas algas e pequenos seres, em razão de uma enzima digestiva especial que possuem, há um grande problema para os filhotes que nascem nesse local. Pedras de sal se formam em suas patas e a calcificação resultante dessa formação dificulta muito sua locomoção quando o lago começa a secar nos períodos de calor extremo, fazendo com que não sejam capazes de acompanhar o restante do grupo em rápida movimentação, e como só os mais aptos sobrevivem…

Imagens Assustadoras:
Nick Brandt, renomado fotógrafo da natureza (o mesmo que na África dirigiu em 1995 o clipe “Earth Song” de Michael Jackson), publicou em 2013 através da editora Harry N. Abrams, as imagens que captou, em um livro de nome “Across the Ravaged Land”, algo como “Através da” ou “por toda a Terra Devastada” em tradução livre.


O reflexo da luz nas águas do lago faz com que morcegos e aves fiquem confusos, o toquem acidentalmente e caiam dentro do Natron. Na água, morrem e são calcificados e, à medida que secam, são preservados.


Brandt, enquanto passava a trabalho pela região do lago, se deparou com esses animais perfeitamente preservados e decidiu desviar por um tempo sua atenção para retratar esse fenômeno.


O fotógrafo reposicionou as criaturas de forma a aparentarem certa “vida”, porém nas posições em que foram encontrados. De qualquer forma o resultado é meio que assustador. Ele diz: “… Não poderia deixar de fotografá-los. Ninguém sabe ao certo como eles morreram, mas parece que a natureza reflexiva extrema da superfície do lago os confundiu, e como pássaros que colidiram com vidraças, eles correram para dentro da bacia…”


Curiosidades:
1: Outros lagos rosados mundo afora.


- Lago Retba no Senegal;
- Lago Hillier, na Austrália;
- Lago Dusty Rose, Canadá;
- Lago Masazir, Azerbaijão;
- Salina de Torrevieja, Espanha;
- Lago Hutt, Austrália;
- Laguna Colorada, Bolívia.
2: De onde vem o nome?
O nome Natron vem de natrão, composto natural formado de carbonato de sódio com bicarbonato de sódio. No lago ele se forma pelo acúmulo de cinzas vulcânicas a partir do Grande Vale do Rift (“fenda” ou “falha”), região rica em vulcões em erupção e lagos, em extensa região da África ao longo de vários países…

A linha da raiz da palavra deriva do grego nitron, e depois para o latim natrium , em razão que no copta egípcio significa neṯry (de neteru, do antigo egípcio, que significa princípio divino). Assim, pela sua relação com o sagrado, é que se deu lugar ao termo “sal divino”, usado em muitas regiões. Depois foi empregada no aramaico nithra, no hebraico neter e no árabe, natrun.
3: O natrão no Egito antigo.
Essa substância no antigo Egito era utilizada para o preparo de corpos, no processo de mumificação. As substancias que compunham o preparado eram, carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sal e sulfato de sódio, em uma solução aquosa. Os corpos ficavam imersos nessa solução por um período não menor que 40 dias e não maior do que 70. Esse preparado servia para desidratar as células e acabar com qualquer tipo de bactéria que pudesse estar presente no corpo e, uma vez desidratado eram retirados os órgãos internos e o corpo era preenchido com serragens e ervas aromáticas para evitar a deterioração e algumas ervas aromaticas; Embora sejam conhecidos os componentes para o preparo da solução, os egípcios não deixaram registrado o processo de mumificação.

Além dessa finalidade, de cunho religioso, o natrão era usado também como alvejante para roupas brancas, e, quando misturado com argila, servia como sabão que se usava para preparar lã.

Misturado com óleos, foi a primeira forma de sabão, altamente desinfetante. Ele se torna macio com a água, removendo gorduras e impurezas. Não diluído, o natrão era usado como limpador bucal.

Como o bicarbonato de sódio absorve o cheiro do mofo, tornou-se um método confiável na antiguidade. A pasta de dentes que contém bicarbonato de sódio mostrou ser eficaz para um melhor branqueamento e até efeito na remoção de placas, mais do que as conhecidas pastas de dentes que não têm. Em lavatório bucal, tem propriedades abrasivas, neutraliza a produção de ácido na boca e é um antisséptico natural, no combate a infecções. Como solução para irrigação nasal também é eficaz. Foi usado na higiene dos olhos para tratar a blefarite (uma inflamação das pálpebras), com uma solução especial. O natrão era usado para secar e preservar o peixe e a carne, pelas suas propriedades conservantes e antifúngicas. O natrão sempre foi usado como um antigo inseticida doméstico, no curtume e para esterilizar roupas, controle de pragas. Uma vez consumido, provoca a explosão de órgãos internos de insetos e na eliminação de fungos.
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