
Você já olhou para a Lua e sentiu que, apesar de tão familiar, ela ainda guarda segredos indecifráveis? E se alguém lhe dissesse que um homem, de um telhado no coração do Curdistão, conseguiu desvendar sua face com uma nitidez que a própria NASA aplaudiu?
“Por trás dessa obra-prima digital de 708 gigabytes, não estava um grande observatório, mas um homem: Darya Kawa Mirza, um astrofotógrafo curdo autodidata que, com uma paciência de monge e uma paixão que transcende o céu, redefiniu nossa visão do satélite natural da Terra.”
Em outubro de 2024, uma imagem da Lua começou a se espalhar pela internet como um incêndio cósmico. Não era uma foto qualquer. Era um mosaico de detalhes tão absurdamente nítidos que parecia ficção científica. Crateras, sulcos e até as sutis variações de cor do solo lunar, resultado de milênios de impactos de asteroides e erupções vulcânicas, estavam ali, expostos em uma resolução de quase 160 megapixels. A legenda era audaciosa: “a foto mais nítida da Lua já tirada”. Por trás dessa obra-prima digital de 708 gigabytes, não estava um grande observatório, mas um homem: Darya Kawa Mirza, um astrofotógrafo curdo autodidata que, com uma paciência de monge e uma paixão que transcende o céu, redefiniu nossa visão do satélite natural da Terra.

Mas quem é Darya Kawa Mirza? Para entender a magnitude de sua conquista, precisamos voltar no tempo, para as noites quentes de Erbil, a capital da região autônoma do Curdistão, no Iraque. Nos anos 80 e 90, como muitas crianças locais, Darya dormia no telhado de casa para escapar do calor do verão. Ali, sob um manto de estrelas, longe da poluição luminosa das grandes metrópoles, sua fascinação pelo cosmos nasceu. A Lua não era apenas um ponto de luz, mas um mundo vizinho, um companheiro silencioso em suas noites de infância. Essa conexão primordial com o céu noturno plantou uma semente que levaria décadas para florescer em sua totalidade.
A obsessão de infância por registrar o mundo ao seu redor materializou-se em 2007, quando seu pai lhe presenteou com uma câmera digital, uma Canon PowerShot SD750. Naquela época, era um tesouro. Darya mergulhou de cabeça, ensinando a si mesmo os fundamentos da fotografia: abertura, ISO, velocidade do obturador. Ele descreve aquele momento como “um pequeno passo para começar uma jornada de mil milhas”. De piqueniques em família a paisagens inspiradas nos fotógrafos da Islândia e dos Estados Unidos, ele aprimorou seu olhar, sempre tentando capturar algo que “as pessoas não estão acostumadas a ver”.
Sua jornada o levou a comprar uma câmera DSLR full-frame em 2014, mas o chamado do cosmos era irresistível. Ele sempre se pegava apontando a lente para as estrelas e nuvens. Foi então que uma ideia, quase um capricho, mudou tudo: ele descobriu que poderia ter um telescópio em casa. Em 2017, com o dinheiro que tinha, encomendou um modelo simples, para crianças, na Amazon. O objetivo? Apenas tirar umas fotos da Lua. Mal sabia ele que aquela seria, em suas próprias palavras, “a melhor decisão que já tomei”.

O caminho, no entanto, não foi livre de obstáculos. O telescópio foi confiscado no Aeroporto Internacional de Erbil, e Darya levou três meses para conseguir a liberação de segurança. A persistência valeu a pena. Assim que o teve em mãos, começou a fotografar a Lua e a resposta do público foi imediata e calorosa. As pessoas apreciavam seu trabalho, e isso o motivou a ir além.
“O reconhecimento mais significativo, no entanto, veio da agência espacial mais famosa do mundo. No início de 2023, a NASA entrou em contato. Eles queriam destacar uma de suas fotos como a ‘Astronomy Picture of the Day’. ‘Foi o dia mais feliz da minha vida’, relembra Darya.”
A grande virada veio com a inspiração de outros astrônomos. Vendo imagens da Lua com uma qualidade superior à sua, ele não se intimidou; sentiu-se desafiado. “Isso me fez aprender e me esforçar para tentar alcançar um nível mais alto”, conta ele. Esse desejo de superação, combinado com o apoio que recebia online, o impulsionou a embarcar em seu projeto mais ambicioso até hoje.
O resultado foi a imagem que viralizou. Mas o que exatamente está por trás dela? A técnica, que ele chama de “Phase Fusion” (Fusão de Fases), é tão complexa quanto o nome sugere. Durante quatro dias consecutivos, Darya apontou seu equipamento para o céu. Ele não capturou a Lua em um único momento, mas em quatro fases distintas, incluindo a lua cheia e a lua nova. Ele registrou mais de 81.000 frames, acumulando um volume de dados colossal de 708 gigabytes.

O trabalho braçal veio depois. Foram mais quatro dias dedicados a processar e montar esse quebra-cabeça cósmico. “Tirar imagens astronômicas é como montar um quebra-cabeça, peça por peça”, explica. A dificuldade da “Phase Fusion” reside no fato de que a Lua está em constante movimento em seu próprio eixo, o que significa que as diferentes fases não se alinham facilmente. Cada frame precisou ser meticulosamente ajustado e mesclado, um trabalho que, segundo ele, é “doloroso” e que poucos astrônomos no mundo conseguiram executar corretamente. O equipamento para essa façanha também evoluiu: um telescópio Skywatcher Flextube 250p Dobsonian modificado em uma montagem equatorial NEQ 6 Pro, combinado com uma câmera ZWO ASI 178mc para os detalhes e uma Canon EOS 1200D para capturar as cores dos minerais lunares.
“De um telhado em Erbil, ele nos lembra que a paixão, a dedicação e a curiosidade podem derrubar qualquer fronteira, seja ela terrestre ou celestial.”
O resultado final é uma imagem que não apenas mostra a superfície lunar com uma clareza sem precedentes, mas também captura a dança sutil de luz e sombra que ocorre ao longo de vários dias. É uma visão da Lua que é, ao mesmo tempo, cientificamente precisa e artisticamente arrebatadora.
O impacto foi estrondoso. A foto gerou 100.000 curtidas em uma única página de astrofotografia no Facebook, tornando-se o post mais popular da história da página. Em seu próprio Instagram, @daryavaseum, ele saltou de 400.000 para 500.000 seguidores em um único dia, e hoje já ultrapassa a marca de um milhão. As manchetes se multiplicaram: “A imagem mais clara da Lua”, “Fotógrafo captura os detalhes mais nítidos já vistos”.

O reconhecimento mais significativo, no entanto, veio da agência espacial mais famosa do mundo. No início de 2023, a NASA entrou em contato. Eles queriam destacar uma de suas fotos como a “Astronomy Picture of the Day” (Imagem Astronômica do Dia). “Foi o dia mais feliz da minha vida”, relembra Darya. Ele se tornou a primeira pessoa em seu país a receber tal honra, um feito que atraiu a atenção da mídia local e o transformou em um herói nacional. O reconhecimento também trouxe um apoio inesperado: Hasan Begzadeh, outro astrofotógrafo curdo, presenteou-o com uma câmera e um telescópio ainda mais avançados, um gesto de solidariedade e incentivo para que ele continuasse sua jornada.
Para Darya, que também é mestre em ciência do solo e trabalha como administrador no maior parque público de Erbil, a astrofotografia é mais do que um hobby; é uma rotina sagrada. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele sobe ao telhado com seus pesados telescópios de 25 quilos cada, criando seu santuário particular. Às vezes, fica ali até as duas da manhã, em um silêncio que sua família respeita religiosamente, pois sabem que o menor passo em falso pode arruinar horas de trabalho.

Sua filosofia é simples e direta: “Se uma foto não me choca, eu não a publico”. Essa busca incansável pela imagem perfeita, que combina beleza e precisão, o levou a ser contatado por professores e revistas científicas, que usam seus dados para estudar a geologia lunar. Embora ele admita que precisaria de um telescópio ainda maior para aumentar a credibilidade científica de seus dados, seu trabalho já está contribuindo para a educação e a pesquisa.
Hoje, Darya Kawa Mirza não é apenas um fotógrafo; ele é um contador de histórias cósmicas, um embaixador do céu noturno. De um telhado em Erbil, ele nos lembra que a paixão, a dedicação e a curiosidade podem derrubar qualquer fronteira, seja ela terrestre ou celestial. Seus olhos agora estão voltados para novos desafios: capturar a imagem mais nítida do Sol, de planetas como Júpiter, e se aventurar pelas profundezas do espaço para fotografar galáxias e nebulosas com sua precisão característica.

A jornada de Darya, que começou com um olhar de criança para a Lua, transformou-se em uma saga que inspira milhões. Ele nos mostra que, não importa onde estejamos, o universo está ao nosso alcance, esperando para ser descoberto. E depois de ver a Lua através de seus olhos, como você olhará para o céu noturno esta noite?
Bibliografia Consultada
•This is Colossal. (2024, October 7). An Enormous Photo of the Moon Zooms in on the Cratered Lunar Topography in Incredible Detail.
•Whitewall. (n.d.). Interview with photographer Darya Kawa Mirza.
•DIY Photography. (2025, March 13). This Extremely Detailed Moon Image Took over 81,000 Photos and Four Days.
•Kurdistan Chronicle. (2024, November 5). Kurdish Astrophotographer Captures Clearest Image of the Moon.
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