
No coração árido e ensolarado de Santa Fé, Novo México, ergue-se uma capela de estilo gótico que parece um fragmento da velha Europa transplantado para o sudoeste americano. É a Capela de Loretto, um lugar de beleza serena e arquitetura devocional. Mas não são seus vitrais importados da França ou seus arcos que atraem mais de 250 mil visitantes todos os anos. O que chama o mundo a este lugar é uma estrutura de madeira que, há quase 150 anos, se recusa a obedecer às regras do nosso mundo: uma escada em espiral que é, ao mesmo tempo, uma obra-prima da carpintaria e um milagre sussurrado.
“Desoladas, as freiras fizeram o que lhes restava: recorreram à fé. Iniciaram uma novena (nove dias de oração) a São José, o santo padroeiro dos carpinteiros, pedindo por uma solução.”
A história começa em 1878. As Irmãs de Loretto haviam finalmente concluído sua capela, um sonho acalentado para a educação de jovens mulheres na região. O arquiteto, Projectus Mouly, inspirado na Sainte-Chapelle de Paris, criou um interior sublime, mas, em um lapso trágico — talvez causado por sua morte inesperada antes da conclusão final da obra —, deixou um problema insolúvel: não havia como acessar o coro, a quase sete metros de altura. O espaço era tão exíguo que todos os carpinteiros consultados balançavam a cabeça em negação. Uma escada convencional destruiria a harmonia do pequeno santuário; uma escada de mão era uma solução perigosa e indigna. O coro, destinado a ecoar os cânticos de louvor, permanecia em silêncio, inalcançável.
Desoladas, as freiras fizeram o que lhes restava: recorreram à fé. Iniciaram uma novena (nove dias de oração) a São José, o santo padroeiro dos carpinteiros, pedindo por uma solução. Oito dias se passaram em preces e silêncio. No nono e último dia, a resposta não veio como um trovão dos céus, mas como o som suave de uma batida na porta.

Ali estava um homem simples, de aparência envelhecida, acompanhado apenas por um burro que carregava uma modesta caixa de ferramentas. Ele disse que era carpinteiro e que poderia construir a escada. Sua única exigência foi permissão para trabalhar sozinho, a portas fechadas. As freiras, vendo talvez um raio de esperança ou o desespero falando mais alto, concordaram. Por meses — alguns relatos dizem três, outros seis — o homem se trancou na capela. O som de suas ferramentas era o único sinal de sua presença.
Quando as portas finalmente se abriram, o que as freiras viram tirou-lhes o fôlego. Do chão da capela ao coro, subia uma elegante escada em espiral, com duas voltas completas de 360 graus. Parecia flutuar no ar, uma fita de madeira torcida com uma graça que desafiava a gravidade. A obra era perfeita, mas o carpinteiro havia desaparecido. Ele não esperou por pagamento, nem mesmo por um agradecimento. Sumiu tão misteriosamente quanto surgiu, sem deixar nome ou rastro. As irmãs publicaram anúncios em jornais locais, procuraram por toda a região, mas ninguém jamais soube quem era aquele homem.
Para as freiras, a conclusão era óbvia: o humilde artesão só poderia ter sido o próprio São José, enviado em resposta às suas orações. E a escada que ele deixou para trás parecia, de fato, um milagre.
“A escada de Loretto transcende a simples questão de ‘como foi feita?’. Ela se tornou um ponto de intersecção entre o possível e o impossível, entre a ciência e a fé.”
Aqui, a lenda se encontra com a engenharia, e o mistério se aprofunda. A escada da Capela de Loretto é um prodígio que continua a intrigar arquitetos e engenheiros até hoje. São três os grandes enigmas:

- A Construção Impossível: A escada não possui um pilar de suporte central (newel), que é o elemento estrutural padrão para dar estabilidade a uma escada em espiral. Ela se sustenta como que por magia. Além disso, foi construída sem um único prego ou cola; apenas cavilhas de madeira unem as peças com uma precisão desconcertante. Como ela suporta o peso e permanece de pé há mais de um século é uma questão que desafia as explicações convencionais da física. Análises modernas sugerem que o raio interno da espiral é tão apertado que a longarina interna age como um suporte “virtual”, e a laminação das peças de madeira cria uma estrutura mais forte que a madeira maciça. Mesmo assim, um estudo de engenharia concluiu que a escada está sob um estresse severo, operando no limite de sua resistência material. Originalmente, ela não tinha corrimão e balançava ao ser usada, o que levou à adição posterior de um corrimão e um pequeno suporte de ferro que a conecta a uma coluna próxima, uma concessão à segurança que pouco faz para resolver o mistério original de seu equilíbrio.
- A Madeira Misteriosa: Análises laboratoriais identificaram a madeira como sendo de uma espécie de abeto (spruce), um tipo de pinheiro. O problema? Essa madeira não é nativa do Novo México. Alguns estudos afirmam que a subespécie exata nunca foi identificada em nenhum outro lugar do mundo, enquanto outros sugerem que a origem mais próxima seria lugares distantes como o Alasca. Como um carpinteiro solitário, no final do século XIX, obteve e transportou essa madeira para o meio do deserto de Santa Fé, sem que ninguém visse?
- A Identidade do Fantasma: Quem foi o carpinteiro? Para os fiéis, a resposta sempre será São José. A simbologia reforça a crença: a escada tem exatamente 33 degraus, a idade que se acredita que Cristo tinha ao ser crucificado. No entanto, céticos e historiadores buscaram uma resposta mais terrena. Uma historiadora amadora, Mary Jean Cook, apresentou uma teoria convincente: o construtor seria um imigrante francês recluso chamado François-Jean “Frenchy” Rochas. Rochas era um conhecido e habilidoso trabalhador de madeira que vivia na região e foi assassinado em 1894. Uma nota em seu obituário, publicada em um jornal local, mencionava que ele havia construído “a bela escadaria na capela de Loretto”. Essa parece ser a solução mais plausível, mas não explica tudo. Por que ele trabalhou em segredo? Por que nunca reivindicou o pagamento ou a autoria de uma obra tão magnífica? E como ele obteve a madeira? A teoria de Rochas oferece um nome, mas não dissipa a névoa do mistério.
Hoje, a Capela de Loretto não é mais uma igreja católica em funcionamento, mas um museu e uma popular capela de casamentos. A escada, antes usada diariamente pelas freiras, agora é admirada à distância, pois não é mais permitido subir nela para garantir sua preservação. Ela se tornou um ícone cultural, tema de documentários, filmes e incontáveis artigos.

“Talvez a verdadeira beleza da escada não esteja em uma resposta definitiva, mas na própria pergunta que ela nos impõe, nos forçando a confrontar os limites do nosso conhecimento.”
A escada de Loretto transcende a simples questão de “como foi feita?”. Ela se tornou um ponto de intersecção entre o possível e o impossível, entre a ciência e a fé. Para o engenheiro, é um quebra-cabeça estrutural fascinante. Para o historiador, um conto folclórico com possíveis raízes em um personagem real e esquecido. Para o fiel, é a prova material de que a oração pode ser respondida de formas extraordinárias.
A estrutura de madeira, silenciosa em seu canto da capela, continua a nos provocar. Ela é o resultado do trabalho de um gênio da carpintaria que desejava o anonimato ou a materialização de uma intervenção divina? Talvez a verdadeira beleza da escada não esteja em uma resposta definitiva, mas na própria pergunta que ela nos impõe. Ela nos força a confrontar os limites do nosso conhecimento e a considerar que, talvez, nem tudo neste mundo precise ser completamente explicado para ser verdadeiro.

Afinal, em um mundo cada vez mais desvendado pela ciência, não é a persistência de um mistério como este que nos mantém maravilhados e nos lembra que ainda há espaço para o inexplicável?
Bibliografia Consultada
- Site Oficial da Capela de Loretto (lorettochapel.com)
- Artigos da Wikipedia sobre a “Loretto Chapel” e a “Miraculous Stair”.
- Análises céticas e históricas, como as do pesquisador Joe Nickell e da historiadora Mary Jean Cook.
- Artigos de portais de notícias e história, como “Portal Litoral Sul”, “Ciência confirma a Igreja” e “Revista História em Destaque”.
- Análises de engenharia, como o estudo “The Column-Less Stair in Loretto Chapel in Santa Fe, New Mexico: Strength Analysis” de Anita Sumali.
- Publicações em portais de curiosidades e mistérios que recontam a lenda e os fatos conhecidos.
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