
Ele é uma figura universal, um ícone da cultura pop cuja silhueta é reconhecida em qualquer canto do planeta. Com sua roupa de marinheiro, ausência de calças e um temperamento que oscila entre o adorável e o furioso, o Pato Donald é um dos pilares do império Disney. Sua voz, um grasnado quase ininteligível e perpetuamente irritado, é sua marca registrada, a fonte de inúmeras piadas e uma característica tão famosa quanto as orelhas do Mickey Mouse. Mas e se essa voz, esse traço cômico que divertiu gerações, não fosse uma invenção inocente? E se, em vez disso, fosse um eco sombrio, nascido nos campos de treinamento da Segunda Guerra Mundial, forjado na dor e no trauma de soldados reais?
Nos últimos anos, uma narrativa perturbadora começou a ganhar força nos cantos mais obscuros da internet, sussurrada em fóruns e amplificada por podcasts de mistério. A teoria é tão precisa quanto assustadora: a imagem do pato mais amado e irritadiço do mundo não teria nascido da imaginação de um artista, mas sim do eco gutural e desesperado de gargantas arruinadas pela guerra. Segundo essa lenda, em 1942, no auge do esforço de guerra americano, médicos militares no Texas começaram a receber soldados que retornavam de exercícios com gás. Os relatos descreviam homens com as cordas vocais e a garganta permanentemente danificadas, incapazes de articular palavras, emitindo apenas sons arranhados, agudos e quebrados. Uma voz “de pato”.
“E se essa voz, esse traço cômico que divertiu gerações, não fosse uma invenção inocente? E se, em vez disso, fosse um eco sombrio, nascido nos campos de treinamento da Segunda Guerra Mundial, forjado na dor e no trauma de soldados reais?”
A condição, apelidada de “Síndrome da Voz de Pato” (Duck Voice Syndrome), vinha acompanhada de uma fúria incontrolável, uma irritabilidade extrema causada pela frustração de não conseguir se comunicar. A lenda vai além, afirmando que esboços desses soldados, com olhos ferozes e bocas travadas em um grito de raiva, teriam sido feitos por observadores. Em um suposto acordo com o governo americano para impulsionar a moral e o esforço de guerra, a Disney teria recebido esses relatos e esboços. Um ano depois, o Pato Donald, com sua fala incompreensível e seus ataques de fúria, explodiria em popularidade, tornando-se uma estrela da propaganda. As crianças riam, mas, segundo a lenda, os veteranos que assistiam aos curtas não partilhavam da mesma alegria. Eles viam um reflexo distorcido de seu próprio sofrimento transformado em entretenimento.

Essa história é poderosa. Ela conecta um ícone infantil a um dos períodos mais sombrios da história moderna, sugerindo que por trás da fachada colorida da Disney se esconde um segredo terrível. Mas será que ela é verdadeira? A criação do Pato Donald foi realmente um ato de propaganda de guerra baseado no trauma de soldados feridos?
A Máquina de Propaganda e o Pato Soldado
Para entender por que essa lenda é tão sedutora, é preciso primeiro reconhecer uma verdade inegável: a Disney e o Pato Donald foram, de fato, peças fundamentais na máquina de propaganda americana durante a Segunda Guerra Mundial. Após o ataque a Pearl Harbor em 1941, os estúdios de Walt Disney foram essencialmente requisitados pelo governo. Mais de 90% da produção da Disney durante o período de guerra foi dedicada a filmes de treinamento, curtas de propaganda e insígnias militares.

Nesse cenário, o Pato Donald se tornou um soldado. Em 1º de maio de 1941, ele foi oficialmente “alistado” no Exército dos EUA. O curta “Donald Gets Drafted” (1942) mostra o pato recebendo sua carta de convocação e passando por um exame físico cômico. Mas foi em 1943 que ele estrelou sua obra-prima de propaganda: “Der Fuehrer’s Face” (A Face do Führer). O curta, que ganhou o Oscar de Melhor Curta de Animação, é uma sátira surreal e contundente da vida na Alemanha Nazista. Donald tem um pesadelo em que é um operário em uma fábrica de munições, sofrendo com a escassez de comida, o trabalho exaustivo e a onipresença da suástica. O filme foi uma ferramenta poderosa para vender bônus de guerra e fortalecer o sentimento antinazista em casa.
“A verdade, no entanto, é cronologicamente teimosa. O Pato Donald, com sua voz inconfundível e seu temperamento explosivo, nasceu em 9 de junho de 1934, oito anos antes dos supostos eventos no Texas.”
Essa conexão direta e documentada entre Donald, a Disney e o esforço de guerra americano cria um terreno fértil para a lenda da “Síndrome da Voz de Pato”. Se o estúdio já estava colaborando tão intimamente com os militares, a ideia de que eles teriam se inspirado em condições médicas de soldados não parece tão implausível. É a mistura perfeita de fato e ficção que dá a uma lenda urbana seu poder de persuasão. No entanto, há um detalhe que derruba toda a narrativa.

A Teimosia da Cronologia
A verdade, no entanto, é cronologicamente teimosa. O Pato Donald, com sua voz inconfundível e seu temperamento explosivo, nasceu em 9 de junho de 1934, oito anos antes dos supostos eventos no Texas. Sua primeira aparição foi no curta da série “Silly Symphonies” chamado “The Wise Little Hen” (A Galinha Sábia). Na história, Donald e seu amigo Peter Pig se recusam a ajudar uma galinha a plantar e colher seu milho, fingindo dores de barriga. Quando a galinha finalmente faz um delicioso bolo de milho, ela pergunta quem quer ajudá-la a comê-lo, e os dois preguiçosos se oferecem prontamente, apenas para receberem um frasco de óleo de rícino.
Desde essa primeira aparição, a voz característica de Donald já estava lá. Não era um desenvolvimento posterior, mas a própria essência do personagem desde o início. Sua personalidade irascível também foi rapidamente estabelecida. Em sua segunda aparição, “Orphan’s Benefit” (1934), ele já é o pato temperamental que conhecemos, tentando recitar um poema enquanto é incessantemente atormentado pelos sobrinhos do Mickey, o que o leva a um de seus famosos ataques de raiva. Portanto, a alegação de que sua voz e fúria foram inspiradas em soldados em 1942 é simplesmente impossível. O personagem já existia, plenamente formado, muito antes de os Estados Unidos entrarem na guerra.

A Verdadeira Voz por Trás do Pato
A origem da voz de Donald é uma história muito mais encantadora e menos sinistra, e seu protagonista é um homem chamado Clarence “Ducky” Nash. Nascido em uma fazenda em Oklahoma, Nash era um talentoso imitador de animais desde a infância. Nos anos 30, enquanto trabalhava como entregador de leite em Los Angeles, ele também fazia apresentações em programas de rádio e vaudeville. Em 1933, ele decidiu tentar a sorte no estúdio de Walt Disney.
Durante sua audição, Nash apresentou seu repertório de imitações de animais. Como seu grande final, ele começou a recitar a canção de ninar “Mary Had a Little Lamb” com uma voz que ele havia desenvolvido para imitar uma cabritinha nervosa. Ele conseguia produzir o som pressionando o ar através de um canto da boca, sem vibrar as cordas vocais. Um diretor ouviu e, intrigado, ligou o interfone para o escritório de Walt Disney. Walt ouviu a performance e correu para a sala, exclamando animadamente: “Esse é o nosso pato falante!”.

Clarence Nash não apenas deu voz a Donald em 1934, mas continuou a ser a voz oficial do personagem por mais de 50 anos, em mais de 150 curtas e filmes, até sua morte em 1985. A voz não nasceu de um hospital militar, mas da criatividade de um entregador de leite de Oklahoma que sabia imitar uma cabra.
O Eco de uma Verdade Sombria
Se a lenda é falsa, por que ela existe? E por que ela ressoa com tanta força? A resposta pode estar no fato de que, como muitas lendas urbanas eficazes, a história da “Síndrome da Voz de Pato” se agarra a uma verdade histórica terrível, mesmo que a distorça. A lenda do Pato Donald é falsa, mas a dor que ela ecoa é terrivelmente real.
“A ‘Síndrome da Voz de Pato’ pode ser uma ficção, mas os soldados com gargantas e pulmões arruinados por gás eram uma realidade brutal. A lenda, portanto, funciona como uma metáfora distorcida, um boato que carrega o peso de um trauma histórico que foi suprimido por muito tempo.”
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos conduziu experimentos secretos com gás mostarda em mais de 60.000 de seus próprios soldados. Conforme revelado por investigações de veículos como a NPR e o Defense Media Network, esses testes tinham como objetivo testar a eficácia de máscaras e roupas de proteção. Soldados, muitas vezes separados por raça para testar se a pele de soldados negros e nipo-americanos era mais resistente, eram trancados em câmaras de gás e expostos ao agente químico. Outros foram expostos em testes de campo. As consequências foram devastadoras: queimaduras graves, problemas respiratórios crônicos, câncer e danos psicológicos duradouros. Por décadas, esses veteranos sofreram em silêncio, jurados a manter segredo e com seus registros médicos muitas vezes negados ou ignorados pelo Departamento de Assuntos de Veteranos.
A “Síndrome da Voz de Pato” pode ser uma ficção, mas os soldados com gargantas e pulmões arruinados por gás eram uma realidade brutal. A lenda, portanto, funciona como uma metáfora distorcida, um boato que carrega o peso de um trauma histórico que foi suprimido por muito tempo. Ela pega a imagem familiar de um pato de desenho animado e a usa como um recipiente para uma história de sofrimento que a história oficial tentou esquecer.

No final, o Pato Donald não é um monumento à dor dos soldados, mas um personagem cômico que, por acaso, foi convocado para a guerra. Sua criação é uma história de criatividade e sorte, não de conspiração e segredo. No entanto, a persistência dessa lenda urbana sombria nos diz muito sobre nossa relação com a história e a cultura. Ela revela um fascínio pela ideia de que segredos obscuros se escondem sob superfícies familiares e uma necessidade de dar voz a traumas que foram silenciados.
A lenda do “Pato de Guerra” pode ser falsa, mas nos força a perguntar: quantas outras histórias reais de sofrimento foram silenciadas, aguardando que uma ficção lhes desse voz?
Bibliografia Consultada
1.Wikipedia – Donald Duck: https://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Duck
2.Cartoon Research – “How Clarence Nash Became Donald Duck” (2022): https://cartoonresearch.com/index.php/how-clarence-nash-became-donald-duck/
3.Smithsonian Magazine – “How Disney Propaganda Shaped Life on the Home Front During WWII” (2022): https://www.smithsonianmag.com/history/how-disney-propaganda-shaped-life-on-the-home-front-during-wwii-180979057/
4.NPR – “Secret World War II Chemical Experiments Tested Troops By Race” (2015): https://www.npr.org/2015/06/22/415194765/u-s-troops-tested-by-race-in-secret-world-war-ii-chemical-experiments
5.Defense Media Network – “America’s Mustard Gas Experiments and World War II” (2013): https://www.defensemedianetwork.com/stories/americas-mustard-gas-experiments-and-world-war-ii/
6.Inspector Story (Fonte da Lenda): Postagens em redes sociais e podcasts que popularizaram a teoria da “Duck Voice Syndrome”.
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