Sussurros dos Mortos: O que os Sepultamentos Mais Antigos do Mundo Nos Contam Sobre Nós Mesmos?

Quando um ser vivo perece, a natureza segue seu curso implacável: a decomposição o devolve à terra, num ciclo anônimo e eterno. No entanto, em algum ponto de nossa jornada evolutiva, algo mudou. Nossos ancestrais começaram a olhar para seus mortos não como meros invólucros vazios, mas como algo que merecia cuidado, respeito e, talvez, um destino para além do pó. A preocupação com o sepultamento, o ato deliberado de entregar um ente querido à terra com propósito e ritual, é uma das mais profundas e antigas características que definem uma civilização. É a linha tênue que separa o instinto da transcendência, o biológico do simbólico. Este ato, repetido em incontáveis variações através dos milênios e continentes, é um sussurro que ecoa desde a pré-história, contando a história de como nos tornamos humanos.

Viajar em busca desses primeiros sussurros é uma jornada arqueológica fascinante. Cada cova, cada osso posicionado, cada artefato depositado, é uma janela para a mente de nossos antepassados. Eles nos revelam o nascimento do luto, da memória, da estrutura social e, quem sabe, da própria espiritualidade. Vamos explorar os mais antigos vestígios desse “último adeus” em cada canto do globo, descobrindo as curiosas e comoventes maneiras pelas quais nossos ancestrais honravam seus mortos, e o que isso nos diz sobre a essência da nossa própria humanidade.

Ásia: O Berço do Ritual Funerário

É no Levante, uma encruzilhada de migrações pré-históricas, que encontramos as evidências mais antigas e robustas de sepultamentos intencionais realizados pelo Homo sapiens. Nas cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, foram descobertos múltiplos esqueletos datados de 100.000 a 130.000 anos atrás. Estes não são meros acúmulos de ossos. Em Qafzeh, o sepultamento duplo de uma mulher e uma criança, cujos corpos foram cuidadosamente posicionados, sugere um vínculo social e emocional que transcendeu a morte. Em Skhul, a mandíbula de um javali encontrada no peito de um dos indivíduos é interpretada por muitos como uma das primeiras oferendas funerárias, um presente para a jornada que se iniciava.

Uma curiosidade notável desses sítios é a coexistência de práticas. Enquanto a maioria era enterrada em posições flexionadas, quase fetais, outros corpos foram dispostos de maneiras distintas, indicando uma diversidade de rituais dentro do mesmo grupo. Milênios mais tarde, ainda em Israel, encontramos em uma sepultura de 13.000 anos as primeiras evidências do uso de flores em rituais funerários, com impressões de plantas aromáticas como a sálvia no leito da cova. Este gesto, tão familiar para nós hoje, revela uma preocupação com a estética e o sensorial no momento da despedida, um desejo de tornar o local de descanso final um lugar de beleza e paz.

África: O Luto por uma Criança

A África, berço da nossa espécie, guardou por muito tempo os segredos de suas práticas funerárias mais antigas. A revelação veio da caverna de Panga ya Saidi, no Quênia, com a descoberta de “Mtoto”, que significa “criança” em suaíli. Datado de 78.000 anos atrás, este é o mais antigo sepultamento humano deliberado conhecido no continente. Mtoto, uma criança de apenas dois a três anos, foi depositada em uma cova rasa, deitada de lado em uma posição fetal. A análise microscópica revelou que o corpo foi envolto em um sudário, possivelmente de folhas ou pele de animal, e a cabeça foi cuidadosamente apoiada sobre um suporte perecível, como um travesseiro.

O cuidado dispensado a Mtoto é profundamente comovente. Não há artefatos ou oferendas, mas o tratamento do corpo revela um luto e um afeto inconfundíveis. Este não foi um simples descarte, mas um ato de amor e memória. Mais ao norte, na Caverna de Taforalt, no Marrocos, encontramos um cenário diferente: um verdadeiro cemitério datado de cerca de 15.000 anos atrás. Ali, dezenas de indivíduos da cultura Iberomaurusiana foram enterrados, muitos com chifres de carneiro selvagem e outros objetos, indicando rituais comunitários mais complexos e estabelecidos. A curiosidade em Taforalt é a evidência de que alguns indivíduos tiveram dentes incisivos removidos durante a vida, uma prática cultural que os unia como grupo e que foi levada com eles para a morte.

Europa: O Legado dos Neandertais e a Chegada do Homo Sapiens

A Europa pré-histórica foi palco de um encontro de espécies: os Neandertais, nativos do continente, e os Homo sapiens, recém-chegados da África. Ambos enterravam seus mortos, mas de maneiras distintas. Um dos mais icônicos sepultamentos neandertais é o de La Chapelle-aux-Saints, na França, com cerca de 50.000 anos. O esqueleto de um homem idoso, que sofria de artrite severa, foi encontrado em uma cova, levando à teoria de que ele foi cuidado por seu grupo em vida e deliberadamente enterrado após a morte. Outro sítio neandertal crucial é La Ferrassie, também na França, onde foram encontrados os restos de vários indivíduos, incluindo adultos e crianças, dispostos em um padrão que sugere um cemitério familiar.

Os Homo sapiens que chegaram à Europa trouxeram consigo suas próprias tradições. Um exemplo notável é o sepultamento de Sungir, na Rússia, datado de cerca de 34.000 anos atrás. Ali, um homem adulto e duas crianças foram enterrados com uma profusão de oferendas espetaculares: mais de 13.000 contas de marfim de mamute, lanças, adagas e esculturas de animais. A riqueza dos artefatos, especialmente com as crianças, sugere que o status social não era apenas conquistado em vida, mas também herdado, um vislumbre precoce de hierarquia social. A grande curiosidade europeia reside justamente nessa diferença: enquanto os sepultamentos neandertais são mais simples, focados no ato de enterrar, os do Homo sapiens rapidamente evoluem para exibições complexas de status, crença e arte.

Américas: Rituais de Sangue e Ocre

Na América do Norte, o mais antigo sepultamento conhecido nos leva ao sítio de Anzick, em Montana (EUA), com cerca de 12.700 anos. Ali, uma criança de aproximadamente dois anos foi enterrada com mais de 100 ferramentas de pedra e osso da cultura Clóvis, todas cobertas com ocre vermelho. O ocre, um pigmento mineral, é um elemento recorrente em rituais pré-históricos globais, possivelmente simbolizando o sangue e a vida. O sepultamento de Anzick é a única sepultura humana associada diretamente à misteriosa cultura Clóvis, oferecendo uma visão única de suas práticas espirituais.

Descendo para a América do Sul, encontramos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, Brasil, um dos cenários de práticas mortuárias mais complexas e, por vezes, macabras do mundo. Com início há cerca de 10.600 anos, os rituais na Lapa do Santo evoluíram de sepultamentos simples para um elaborado sistema de manipulação dos mortos. A descoberta mais chocante é o caso de decapitação mais antigo das Américas, com 9.000 anos. O crânio de um indivíduo foi removido e suas mãos amputadas foram cuidadosamente posicionadas sobre o rosto em um arranjo simétrico. Outros corpos foram desmembrados, queimados e seus ossos reorganizados em padrões simbólicos, com crânios de adultos sendo enterrados com corpos de crianças, e vice-versa. Essa manipulação intensa, que incluía a remoção de dentes e a pintura dos ossos com ocre, revela uma sociedade com uma visão cosmológica e ritualística da morte de uma complexidade espantosa, muito distante da ideia de simplicidade que se poderia atribuir a caçadores-coletores antigos.

Oceania: Fogo, Ocre e a Memória no Deserto

A colonização da Oceania é uma das maiores sagas da expansão humana. No coração da Austrália, no hoje seco Lago Mungo, encontramos os vestígios dessa jornada. Ali foram descobertos os restos humanos mais antigos do continente, datados de pelo menos 40.000 anos. Duas descobertas se destacam: a “Dama de Mungo” (Mungo I) e o “Homem de Mungo” (Mungo III). A Dama de Mungo representa a cremação mais antiga do mundo, datada de cerca de 24.000 anos. Seus ossos foram queimados, esmagados e enterrados em uma pequena cova, um ritual funerário que exige um sofisticado controle do fogo e uma compreensão abstrata da transformação do corpo.

O Homem de Mungo, por sua vez, datado de 40.000 anos, foi cuidadosamente enterrado em posição supina, com as mãos entrelaçadas sobre o colo, e todo o seu corpo foi polvilhado com ocre vermelho trazido de centenas de quilômetros de distância. Este é um dos mais antigos exemplos do uso de ocre em um ritual funerário no mundo. A curiosidade da Oceania é essa dualidade primordial: a presença, lado a lado, de duas práticas funerárias tão distintas – inumação com ocre e cremação – em uma data tão recuada. Isso demonstra uma diversidade e complexidade cultural e simbólica desde os primeiros momentos da ocupação humana no continente.

De um travesseiro para uma criança no Quênia a um ritual de decapitação no Brasil; de contas de marfim na Rússia a um manto de ocre na Austrália. Os primeiros sepultamentos da humanidade não são apenas covas no chão. São as primeiras páginas de nossa história social, emocional e espiritual. Eles nos mostram que, desde tempos imemoriais, confrontamos a finitude não com indiferença, mas com um profundo e complexo senso de significado. Ao honrar nossos mortos, estávamos, na verdade, definindo o que significava estar vivo. Se o modo como tratamos nossos mortos reflete quem somos, o que os nossos rituais funerários atuais – das cerimônias elaboradas aos memoriais digitais – dirão sobre a nossa civilização para os arqueólogos do futuro?

Bibliografia Consultada

•SAPIENS.org: Crowther, A., & Faulkner, P. (2021). Discovering Africa’s Oldest Burial. Disponível em: https://www.sapiens.org/archaeology/kenya-cave-human-burial/

•National Geographic Brasil: Lopes, R. J. (2018). Cortes, quebras, queimas: os rituais mortuários dos primeiros brasileiros. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2018/03/cortes-quebras-queimas-pinturas-arqueologia-lapa-do-santo-minas-gerais-rituais-mortuarios-primeiros-brasileiros

•ThoughtCo: K. Kris Hirst. (2019). Lake Mungo: Oldest Human Remains in Australia. Disponível em: https://www.thoughtco.com/lake-mungo-australia-171519

•Nature: Martinón-Torres, M., et al. (2021). Earliest known human burial in Africa. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-021-03457-8

•National Geographic: Neanderthal Burials Confirmed as Ancient Ritual. (2013). Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/culture/article/131216-la-chapelle-neanderthal-burials-graves

•Science.org: Rasmussen, M., et al. (2014). The genome of a Late Pleistocene human from a Clovis burial site in western Montana. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.1249625

•Wikipedia: Skhul and Qafzeh hominins. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Skhul_and_Qafzeh_hominins


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