A Porta: Para Onde Se Abre o Que Já Está Dentro?

Por: A Porta do Invisível

A Chave

Antes de ser madeira e ferro, antes de ser um objeto, a porta é um sentimento. É a pausa no corredor, a mão que hesita antes de girar a maçaneta. É o silêncio que se instala entre a batida e a resposta. Toda porta é uma promessa e um perigo, um convite e uma barreira. Ela não apenas separa dois espaços, mas une dois mundos: o de fora e o de dentro, o conhecido e o desconhecido, o que somos e o que estamos prestes a nos tornar.

Ela está em toda parte. Na entrada de um templo, na capa de um livro, no início de um relacionamento. É o primeiro “sim” e o último “adeus”. Olhar para uma porta é confrontar a própria natureza da escolha. Fechada, ela guarda um segredo. Aberta, ela exige uma decisão. E entreaberta, ela sussurra a mais torturante e bela das possibilidades. Por isso, hoje, não vamos apenas olhar para ela. Vamos nos colocar diante dela e perguntar: o que, em nós, espera para ser atravessado?

O Caminho

Desde a antiguidade, a humanidade medita sobre este símbolo. Os romanos veneravam Jano, o deus de duas faces, guardião de todas as portas e passagens. Uma face olhava para o passado, para o que já foi; a outra, para o futuro, para o que virá. Jano nos ensina que toda travessia é, ao mesmo tempo, um fim e um começo. Não se pode entrar em um novo cômodo sem deixar o anterior. Não se pode abraçar o futuro sem, de alguma forma, se despedir do passado. A porta é o ponto zero, o eterno presente onde a decisão acontece.

Na psicologia profunda de Carl Jung, a porta assume a forma do limiar entre a consciência e o vasto oceano do inconsciente. O ego, nosso senso de identidade, atua como um zeloso porteiro, decidindo o que pode emergir das profundezas e o que deve permanecer oculto. Sonhos, atos falhos, intuições… são frestas nessa porta, vislumbres do que habita do outro lado. A jornada de individuação, o processo de se tornar quem realmente se é, consiste em aprender a dialogar com esse porteiro, a negociar a passagem, a permitir que os conteúdos da alma venham à luz não como invasores, mas como convidados de honra.

O hermetismo, com seu lema fundamental “O que está em cima é como o que está embaixo”, vê a porta como o elo entre diferentes planos da realidade. A travessia alquímica, a transformação do chumbo (a ignorância) em ouro (a sabedoria), é uma sucessão de portais. Cada fase do processo — Nigredo, Albedo, Rubedo — é uma câmara que só pode ser acessada após a anterior ter sido completamente integrada. O alquimista não força a passagem; ele se prepara, purifica-se e espera que a porta se abra por ressonância.

Joseph Campbell, em sua análise da jornada do herói, identifica a figura do “Guardião do Limiar”. Este guardião não é necessariamente um inimigo, mas um teste. É a força que se posta diante da entrada do mundo extraordinário e desafia o herói a provar seu valor. Muitas vezes, a batalha não é de força, mas de astúcia, de autoconhecimento. O guardião pergunta: “Quem é você?” e “O que você busca?”. Apenas aquele que pode responder com honestidade e propósito recebe a permissão para passar. Não tememos o que está do outro lado da porta; tememos o que, em nós, será obrigado a mudar ao atravessá-la.

A Travessia

Passamos a vida inteira abrindo e fechando portas físicas, mas as mais decisivas são invisíveis. São as portas do medo, da ignorância, do orgulho, do ressentimento. São as portas que nós mesmos trancamos e, muitas vezes, engolimos a chave. Ficamos do lado de fora de um perdão que nos libertaria, de uma vocação que nos realizaria, de um amor que nos transformaria. Ficamos paralisados no corredor da nossa própria vida, olhando para a maçaneta, inventando desculpas.

O que este símbolo nos ensina, em sua silenciosa sabedoria, é que a porta não é o obstáculo. O obstáculo somos nós. A porta é apenas um espelho que reflete nossa hesitação ou nossa coragem. Ela não se abre com força, mas com intenção. Ela não exige um mapa, mas uma presença. A chave mais difícil de forjar é a coragem, e a fechadura mais resistente é o conforto do conhecido.

Talvez a grande revelação seja esta: não há nada do outro lado que já não exista, em estado latente, dentro de nós. O novo cômodo é uma nova perspectiva. O novo mundo é um novo modo de ser. A travessia não nos leva para fora, mas para o centro. Ao atravessar a porta do medo, não encontramos um monstro, mas a nossa própria força. Ao atravessar a porta da solidão, não encontramos o vazio, mas a nossa própria companhia.

Pois toda porta, no fim, se abre para dentro.

Qual porta você tem evitado em sua vida, sabendo que, do outro lado, existe uma versão de si mesmo que você está destinado a encontrar?

Bibliografia

•Jung, C.G. – Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo

•Eliade, Mircea – O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões

•Campbell, Joseph – O Herói de Mil Faces

•Aurélio, Marco – Meditações

•Platão – A República

•Cirlot, J.E. – Dicionário de Símbolos


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