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No coração do Brasil, onde a terra pulsa com uma energia ancestral e o céu parece mais próximo, estende-se uma cordilheira que sussurra segredos ao vento: a Serra do Roncador. Com seus 800 quilômetros de paredões rochosos que se alongam do Mato Grosso a Goiás, ela ganhou seu nome do som grave e profundo que o vento produz ao atravessar suas fendas durante a noite, um ronco que, para muitos, é a voz adormecida de gigantes ou, quem sabe, de naves de outros mundos. Mas, em meio a toda a sua vastidão mística, nenhum lugar encapsula tão perfeitamente a aura de mistério do Roncador quanto uma pequena e enigmática porção de água: a Lagoa Encantada.
À primeira vista, a lagoa, situada no município de Campinápolis, em Mato Grosso, poderia ser apenas mais um belo cenário do cerrado brasileiro. Suas águas de um verde profundo, emolduradas por uma vegetação densa, criam um oásis de tranquilidade. No entanto, basta um olhar mais atento para que a normalidade comece a se desfazer. A Lagoa Encantada desafia a lógica e a ciência de maneiras sutis, mas perturbadoras. Sua profundidade, por exemplo, é um enigma; expedições e mergulhadores jamais conseguiram determinar seu fundo, alimentando a imaginação com visões de abismos que se conectam a mundos subterrâneos. Mais estranho ainda é o comportamento de suas águas: elas não secam, mesmo nas estiagens mais severas, e seu nível permanece inalterado, impassível diante das chuvas torrenciais. A lagoa parece operar sob suas próprias regras, um ecossistema fechado e autossuficiente que não presta contas às leis da física que conhecemos.
“Sua profundidade, por exemplo, é um enigma; expedições e mergulhadores jamais conseguiram determinar seu fundo, alimentando a imaginação com visões de abismos que se conectam a mundos subterrâneos.”
Mas o verdadeiro encanto da lagoa não reside apenas em suas peculiaridades físicas, e sim nas histórias que a envolvem. Para o povo Xavante, que habita a Terra Indígena Parabubure, onde a lagoa se encontra, este é um local sagrado, a gênese de sua existência. Eles a chamam de U’U, e acreditam que foi de suas profundezas que os primeiros Xavantes emergiram. Para eles, a lagoa não é um simples corpo d’água, mas a “alma” de seu povo, um elo vivo com sua ancestralidade. Ao lado dela, a Gruta dos Segredos reforça essa conexão com o divino; os Xavantes a veem como um portal, uma passagem para o mundo dos espíritos. O acesso a esses locais é restrito, guardado com o zelo de quem protege o próprio coração. É preciso a permissão de um ancião, um gesto de respeito a uma cultura que vê na natureza a manifestação do sagrado.

As lendas Xavante são ricas e complexas. Uma delas narra sobre o “Pai e a Mãe da Água”, entidades poderosas que habitam o fundo da lagoa e que, em tempos imemoriais, teriam capturado mulheres da tribo que se aproximaram de suas águas. Outra fala de um herói que precisou orar aos deuses para resgatar seu povo das profundezas. Essas histórias, passadas de geração em geração, não são meros contos folclóricos; são a base de uma cosmovisão que integra o homem e a natureza de forma indissociável, um lembrete constante de que há forças maiores e mais antigas que a compreensão humana.
Se para os Xavantes a lagoa é um portal para o mundo espiritual, para outros, ela é uma porta de entrada para as estrelas. A Serra do Roncador é um dos epicentros da ufologia brasileira, e a Lagoa Encantada é seu ponto focal. Relatos de luzes misteriosas entrando e saindo de suas águas são comuns, alguns datando de décadas. Há quem fale de “homens prateados”, seres altos e de olhos grandes, que emergiriam da lagoa em noites de lua cheia. Um dos avistamentos mais famosos teria ocorrido em 1999, quando um grupo de pesquisadores afirmou ter visto um objeto voador não identificado pairando sobre o local. O jornalista e pesquisador Genito Santos, que estuda a região há mais de quinze anos, coleciona dezenas de relatos semelhantes, incluindo sua própria experiência de ser seguido por um objeto amarelado e vibrante no céu do Roncador.
“Para o povo Xavante, que habita a Terra Indígena Parabubure, onde a lagoa se encontra, este é um local sagrado, a gênese de sua existência; eles a chamam de U’U, e acreditam que foi de suas profundezas que os primeiros Xavantes emergiram.”
Essa fama de “porto intergaláctico” não é gratuita. A cidade mais próxima, Barra do Garças, abraçou a mística e construiu o único “discoporto” do mundo, uma pista de pouso destinada a receber visitantes de outros planetas. Pode parecer uma excentricidade turística, mas para muitos moradores, a conexão com o cosmos é uma realidade palpável. Eles contam histórias de caronas dadas a seres de aparência incomum e de encontros que desafiam qualquer explicação lógica.
O fascínio pela Serra do Roncador e seus mistérios não é recente. Ele ganhou fama mundial no início do século XX com a saga do explorador britânico Percy Fawcett. Enviado pela Coroa Britânica, Fawcett estava obcecado com a ideia de encontrar uma cidade perdida no coração da América do Sul, a qual ele chamava de “Cidade Z”. Ele acreditava que essa civilização, possivelmente um remanescente de Atlântida, estaria escondida em algum lugar da vasta selva mato-grossense. Em 1925, durante sua última expedição, Fawcett, seu filho Jack e um amigo desapareceram sem deixar vestígios na região do Roncador. O mistério de seu desaparecimento transformou-se em uma lenda global, inspirando livros, filmes e até mesmo o icônico personagem Indiana Jones. A busca de Fawcett por uma cidade subterrânea ressoou com as lendas locais e adicionou uma camada de aventura e perigo à mística da serra.
E a Lagoa Encantada não está sozinha em seu mistério. A Serra do Roncador é um verdadeiro playground para os amantes do inexplicável. Não muito longe, a Caverna dos Pezinhos intriga com suas pegadas impressas nas paredes e no teto, algumas com seis dedos, como se pertencessem a uma raça de seres desconhecidos. O Arco da Pedra, um imponente mirante natural, é considerado por esotéricos como um dos maiores pontos de concentração de energia cósmica do planeta, um “portal” natural. No Bico da Serra, dependendo do ângulo, é possível vislumbrar as formas de uma santa e de um índio, os supostos guardiões espirituais do local. E há ainda o lendário Túnel Roncador, cuja entrada seria zelosamente guardada pelos Xavantes, e que, segundo as lendas, levaria a cidades intraterrenas que se estendem por milhares de quilômetros sob o continente.

Diante de tantas histórias fantásticas, o que é verdade e o que é lenda? A ciência, com seu método rigoroso, ainda não encontrou provas da existência de portais dimensionais, cidades perdidas ou seres extraterrestres na Serra do Roncador. As peculiaridades da Lagoa Encantada, embora intrigantes, podem um dia ser explicadas por fenômenos geológicos ou hidrológicos ainda não compreendidos. No entanto, a ausência de prova não é prova de ausência. O que é inegável é o poder que este lugar exerce sobre a imaginação humana e a profunda importância cultural que ele detém para o povo Xavante. A “verdade” da Lagoa Encantada talvez não esteja em seu fundo insondável ou nas luzes que dançam sobre suas águas, mas na forma como ela reflete nossos próprios anseios, medos e nossa eterna busca por algo que transcenda a realidade cotidiana.
“Em um mundo cada vez mais desencantado, onde cada mistério parece destinado a ser dissecado e explicado, a existência de lugares como a Lagoa Encantada é um sopro de assombro e possibilidade.”
Hoje, a maior ameaça à Lagoa Encantada não vem de outros mundos, mas do nosso. O turismo descontrolado e desrespeitoso coloca em risco não apenas o delicado ecossistema local, mas também a santidade de um lugar que é a própria essência de uma cultura. A preservação da lagoa é a preservação de sua história, de suas lendas e do direito de um povo de manter sua conexão com o sagrado. A Lagoa Encantada é um espelho d’água que reflete o céu, as estrelas e os mistérios da alma humana. Um lugar onde a fronteira entre o real e o imaginário se torna tão fluida quanto suas próprias águas.
Em um mundo cada vez mais desencantado, onde cada mistério parece destinado a ser dissecado e explicado, a existência de lugares como a Lagoa Encantada é um sopro de assombro e possibilidade. Ela nos lembra que, talvez, o universo seja muito mais estranho e maravilhoso do que nossa vã filosofia possa imaginar. E ao contemplar suas águas verdes e paradas, uma pergunta inevitavelmente emerge, ecoando o ronco da serra: se um portal para outro mundo realmente se abrisse diante de você, teria a coragem de atravessá-lo?
Bibliografia Consultada
1.G1. “Cidade perdida e espíritos obsessores: conheça os mistérios de município em MT que tem até aeroporto para alienígenas.” Disponível em: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2024/07/12/cidade-perdida-e-espiritos-obsessores-conheca-os-misterios-de-municipio-em-mt-que-tem-ate-aeroporto-para-alienigenas.ghtml
2.AventureBox. “Lendas Serra do Roncador.” Disponível em: https://aventurebox.com/elas-outdoor/lendas-serra-do-roncador
3.Correio Braziliense. “Na serra onde cavernas sussurram segredos, trilhas levam a histórias que nunca se explicam.” Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/na-serra-onde-cavernas-sussurram-segredos-trilhas-levam-a-historias-que-nunca-se-explicam/
4.Água Boa News. “Em Mato Grosso, ‘Lagoa Encantada’ carrega mistérios sobre povo Xavante.” Disponível em: https://www.aguaboanews.com.br/noticias/exibir.asp?id=39073¬icia=em-mato-grosso-lagoa-encantada-carrega-misterios-sobre-povo-xavante
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