
Nas vastas e poeirentas planícies da Anatólia, na atual Turquia, onde o horizonte é pontilhado por formações rochosas que desafiam a imaginação, conhecidas como “chaminés de fadas”, reside um dos maiores e mais profundos mistérios da história humana. Não à vista de todos, mas escondido sob a superfície, existe um mundo inteiro, um império silencioso de pedra e sombra que abrigou civilizações por milênios. Falamos das cidades subterrâneas da Capadócia, um complexo labiríntico que nos força a questionar tudo o que pensávamos saber sobre nosso passado.
“Não eram apenas cidades isoladas, mas uma rede de cidades-estado intraterrenas, um verdadeiro reino subterrâneo interligado por dezenas de quilômetros de túneis.”
Imagine, por um momento, não uma caverna ou um simples abrigo, mas uma metrópole inteira esculpida nas profundezas da terra. Derinkuyu, a mais famosa e profunda delas, desce a mais de 85 metros – o equivalente a um prédio de quase 30 andares, mas invertido. Com seus 18 níveis, era capaz de abrigar até 20.000 pessoas, juntamente com seus rebanhos e suprimentos de comida. Não era uma simples toca, mas uma cidade-fortaleza com áreas residenciais, estábulos, igrejas com tetos abobadados, escolas, refeitórios, adegas para a produção de vinho e azeite, e uma rede de ventilação tão engenhosa que garantia ar fresco até os níveis mais inferiores. Gigantescas portas de pedra circulares, pesando meia tonelada cada, podiam ser roladas para selar as passagens, transformando cada andar em uma fortaleza impenetrável, que só podia ser operada pelo lado de dentro.

E Derinkuyu não estava sozinha. Estima-se que existam entre 150 a 200 cidades subterrâneas espalhadas pela Capadócia. Kaymakli, outra gigante, embora mais larga e menos profunda, era conectada a Derinkuyu por um túnel de aproximadamente 9 quilômetros de extensão. Pense nisso: não eram apenas cidades isoladas, mas uma rede de cidades-estado intraterrenas, um verdadeiro reino subterrâneo interligado por dezenas de quilômetros de túneis. A escala é tão vasta que, mesmo hoje, acredita-se que apenas uma pequena fração deste mundo foi explorada. Em 2020, uma nova cidade, Matiate, foi descoberta por acidente. Diferente das outras, que se aprofundam verticalmente, Matiate se espalha horizontalmente por quilômetros, com capacidade estimada para até 70.000 habitantes, revelando que o mapa deste império subterrâneo está longe de ser completado.
“Eles não estavam apenas se escondendo de outros homens; eles estavam se escondendo do próprio céu.”
A narrativa oficial, aquela que encontramos nos livros de história, nos diz que essas cidades foram uma maravilha da engenharia defensiva. A rocha de tufo vulcânico da região, macia e maleável, facilitou a escavação. Os primeiros níveis teriam sido cavados pelos frígios, por volta do século VIII a.C., sobre bases possivelmente ainda mais antigas, deixadas pelos hititas. A principal função, segundo os arqueólogos, era a de refúgio. Durante séculos, a Anatólia foi uma encruzilhada de impérios e um campo de batalha constante. As cidades subterrâneas serviram como abrigo para os primeiros cristãos que fugiam da perseguição do Império Romano e, mais tarde, como uma defesa vital contra as invasões árabes durante as guerras bizantinas, entre os séculos VII e XII. A lógica é impecável: quando o inimigo surgia no horizonte, toda a população desaparecia sob a terra, selando o mundo atrás de si e esperando a tempestade passar.
Mas essa explicação, por mais lógica que seja, parece arranhar apenas a superfície de um mistério muito mais profundo. É aqui que entramos no território “cult-in”, onde as perguntas incômodas começam a surgir. Se o objetivo era apenas se proteger de invasores, por que construir em uma escala tão monumental? Por que criar uma infraestrutura capaz de sustentar dezenas de milhares de pessoas por meses, talvez anos, no subsolo? A complexidade dessas cidades sugere uma ameaça muito mais persistente e avassaladora do que exércitos passageiros.
É neste ponto que a hipótese controversa do autor suíço Erich von Däniken ganha uma força intrigante. Em suas obras, ele popularizou a ideia de que a origem de Derinkuyu e suas vizinhas poderia ser muito mais antiga do que a arqueologia convencional admite, datando de mais de 9.000 anos, próximo ao final da última Era Glacial. Von Däniken não fala de exércitos humanos, mas de uma catástrofe de proporções globais. Ele postula que essas cidades não foram construídas como meros abrigos de guerra, mas como arcas de sobrevivência contra um evento que tornou a superfície do planeta inabitável.
Poderia ser um evento climático extremo? O período conhecido como Younger Dryas, há cerca de 12.800 anos, marcou um retorno abrupto a condições glaciais, com quedas de temperatura drásticas em um piscar de olhos geológico. Alguns pesquisadores, inclusive, defendem a hipótese de um impacto de cometa que teria desencadeado esse caos climático, com incêndios globais e uma “noite” prolongada. Sobreviver a um mundo assim exigiria exatamente o tipo de refúgio que encontramos na Capadócia: autossuficiente, protegido de radiação ou de um clima hostil, com fontes de água e ar independentes. A engenharia para sobreviver a um “inverno nuclear” ou a um cataclismo cósmico seria muito diferente daquela para se esconder de uma incursão militar. Seria uma engenharia de longo prazo, exatamente o que vemos em Derinkuyu.
A construção de uma rede de cidades para 60.000 ou mais habitantes, com túneis de conexão de quilômetros, não é uma reação impulsiva a uma invasão. É um projeto planejado, geracional, que responde a uma ameaça existencial e duradoura. A narrativa de uma guerra ou perseguição parece pequena demais para a escala da solução encontrada. É como construir um bunker nuclear para se proteger de um ladrão de galinhas. A resposta parece desproporcional ao problema apresentado pela história oficial.
“A narrativa de uma guerra ou perseguição parece pequena demais para a escala da solução encontrada. É como construir um bunker nuclear para se proteger de um ladrão de galinhas.”
As cidades subterrâneas da Capadócia são um eco de um povo que possuía um conhecimento arquitetônico e uma organização social impressionantes, mas, acima de tudo, um medo profundo de algo que vinha de cima. Eles não estavam apenas se escondendo de outros homens; eles estavam se escondendo do próprio céu. A cada novo túnel descoberto, a cada nova sala revelada, a questão se torna mais premente. Não estamos apenas olhando para ruínas antigas, mas para um manual de sobrevivência deixado por uma civilização que enfrentou um apocalipse e viveu para contar a história, uma história que talvez ainda não estejamos prontos para ouvir.

Ao olharmos para a vastidão silenciosa de Derinkuyu, somos forçados a confrontar a fragilidade de nossa própria civilização e a arrogância de acreditar que conhecemos toda a nossa história. Aqueles construtores antigos nos deixaram mais do que uma maravilha arquitetônica; eles nos deixaram um aviso gravado em pedra. A pergunta que ecoa por esses corredores escuros não é apenas quem eles eram ou do que fugiam, mas sim: se o que quer que os tenha levado para as profundezas da Terra retornasse hoje, para onde nós correríamos?
Bibliografia Consultada
1.BBC News Brasil. “Os mistérios da maior cidade subterrânea já descoberta no mundo.” Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-62799096
2.Wikipedia. “Cidade subterrânea de Derinkuyu.” Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_subterr%C3%A2nea_de_Derinkuyu
3.Wikipedia. “Kaymaklı.” Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Kaymakl%C4%B1
4.Wikipedia. “Matiate.” Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Matiate
5.Däniken, Erich von. Pesquisas e hipóteses popularizadas em suas obras sobre a teoria dos antigos astronautas.
6.Pesquisas sobre o período Younger Dryas e o fim da última Era Glacial, disponíveis em diversas publicações científicas e artigos de divulgação.

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