
Por: Ari, o Guardião das Canções
Você já sentiu o peso e a leveza do mundo no mesmo suspiro? Já encontrou beleza na imperfeição, ou um tipo de fé justamente na dúvida? Existem canções que não apenas ouvimos, mas que habitamos. Elas se tornam catedrais sonoras onde nossas próprias contradições, dores e alegrias encontram um lugar para existir. “Hallelujah”, de Leonard Cohen, é uma dessas catedrais. Uma canção que nasceu rejeitada, levou décadas para encontrar seu público e, hoje, ecoa em todos os cantos do mundo, muitas vezes despida de seu significado original. Mas qual é a verdadeira alma dessa oração secular, desse hino que celebra tanto o sagrado quanto o quebrado?
Para encontrar a resposta, precisamos voltar a 1984. Leonard Cohen, já um poeta e compositor reverenciado, mas longe do auge comercial, estava em um exílio autoimposto da indústria musical. Por quase cinco anos, ele se dedicou a escrever “Hallelujah”. Não foi um processo simples. Cohen preencheu cadernos com cerca de 80 versos, lutando com cada palavra. Ele descreveu o processo como uma agonia, chegando a bater a cabeça no chão de um quarto de hotel em Nova York, em sua roupa de baixo, implorando para que a canção se revelasse a ele.
“A canção não nos pede para sermos santos. Ela nos convida a sermos humanos. Ela nos dá permissão para encontrar Deus no orgasmo, para encontrar fé na dúvida, para cantar um louvor mesmo quando nosso coração está em pedaços.”
Quando finalmente a gravou para o álbum Various Positions, a resposta da gravadora foi um silêncio ensurdecedor. Walter Yetnikoff, o então presidente da Columbia Records, rejeitou o álbum, dizendo a Cohen a frase que entraria para a história da música: “Leonard, nós sabemos que você é ótimo, mas não sabemos se você é bom”. A canção, que hoje é um pilar da cultura pop, foi considerada um fracasso comercial. O mundo, ao que parecia, ainda não estava pronto para o seu Aleluia.
A Primeira Camada: O Acorde Secreto e a Queda dos Reis
No seu nível mais superficial, “Hallelujah” é uma aula de história bíblica musicada. Cohen, neto de um rabino e profundo conhecedor das escrituras, abre a canção nos transportando para a corte do Rei Davi, o “rei perplexo” que encontrou um “acorde secreto” que agradava a Deus. Mas Cohen, com sua ironia característica, imediatamente quebra a solenidade: “Mas você não liga muito para música, não é?”. É um piscar de olhos para o ouvinte, um convite para não levar tudo tão a sério.
O segundo verso mergulha ainda mais fundo na falibilidade dos heróis bíblicos. Vemos Davi, o escolhido de Deus, sendo “arruinado” pela beleza de Betsabá, a quem ele espia se banhando no telhado. Em seguida, a imagem se funde com a de Sansão, o homem mais forte do mundo, amarrado a uma cadeira de cozinha por Dalila, que “quebrou seu trono e cortou seu cabelo”. Em ambos os casos, o poder e a fé são desfeitos pelo desejo carnal. E, no clímax desse encontro, Cohen nos diz que “dos seus lábios ela tirou o Aleluia”. Aqui, o Aleluia não é um louvor a Deus. É um gemido de êxtase, um grito de rendição humana, carnal e imperfeita.

A Segunda Camada: O Sagrado e o Quebrado
É no terceiro verso que Cohen nos entrega a chave para decifrar a alma da canção. Ele se defende da acusação de usar o nome de Deus em vão com uma honestidade desarmante: “Eu nem sei o nome”. E então, ele revela o coração de sua filosofia:
“There’s a blaze of light in every word / It doesn’t matter which you heard / The holy or the broken Hallelujah!”(“Há uma explosão de luz em cada palavra / Não importa qual você ouviu / O Aleluia sagrado ou o quebrado!“)
“O Aleluia de um coração partido tem o mesmo valor do Aleluia de um santo em oração. A luz não está apenas no céu; ela brilha nas rachaduras da nossa humanidade.”
Este é o “além” da canção. Cohen está nos dizendo que o louvor, a gratidão, a conexão com o divino não se encontram apenas na pureza e na perfeição. Eles também existem na nossa bagunça, na nossa dor, nos nossos fracassos. O Aleluia de um coração partido tem o mesmo valor do Aleluia de um santo em oração. A luz não está apenas no céu; ela brilha nas rachaduras da nossa humanidade.
Essa ideia tem raízes profundas na tradição mística judaica da Cabalá, que Cohen estudou. A noção de Shevirat haKelim (a “quebra dos vasos”) fala de um universo criado a partir de uma catástrofe divina, onde faíscas de santidade estão espalhadas por toda a criação, inclusive na escuridão. A tarefa humana, então, é encontrar e elevar essas faíscas. É encontrar o Aleluia no que está quebrado.
A Terceira Camada: A Jornada de uma Canção e a Fé no Canto
“Hallelujah” permaneceu adormecida por anos, um segredo guardado por poucos. Bob Dylan a cantou em alguns shows. John Cale, do Velvet Underground, gravou uma versão mais crua, selecionando alguns dos versos mais seculares que Cohen havia escrito. Foi essa versão que um jovem Jeff Buckley ouviu e transformou em algo etéreo, sensual e trágico. A versão de Buckley, lançada em 1994, foi a que finalmente apresentou “Hallelujah” ao mundo, transformando-a em um hino de angústia e beleza.
Ironicamente, a canção que se tornou um padrão para momentos de luto e melancolia era, para seu autor, uma canção “bastante alegre”. O verso final da versão original de Cohen, que muitas vezes é omitido nos covers, é a sua declaração de fé pessoal:
“And even though it all went wrong / I’ll stand before the Lord of Song / With nothing on my tongue but Hallelujah!”(“E mesmo que tudo tenha dado errado / Eu me apresentarei diante do Senhor da Canção / Com nada em minha língua além de Aleluia!“)
O “Senhor da Canção” não é necessariamente o Deus da Bíblia. É a própria Arte, a Música, a Poesia. Cohen, o artista, está dizendo que, apesar de todas as falhas, rejeições e desilusões da vida, seu compromisso final é com o seu ofício, com a busca pela beleza e pela verdade. Sua salvação não está na perfeição moral, mas na honestidade de sua expressão. É a rendição final de um artista à sua musa, um ato de fé na própria canção.
“Sua salvação não está na perfeição moral, mas na honestidade de sua expressão. É a rendição final de um artista à sua musa, um ato de fé na própria canção.”
O Aleluia que Vive em Nós
Hoje, “Hallelujah” pertence a todos. Foi cantada em funerais, casamentos, shows de calouros e até em comícios políticos. Tornou-se um recipiente vazio que cada um preenche com seu próprio significado. E talvez essa seja sua glória final. Cohen disse uma vez: “Eu digo que todos os aleluias perfeitos e quebrados têm igual valor”.

Esta canção não nos pede para sermos santos. Ela nos convida a sermos humanos. Ela nos dá permissão para encontrar Deus no orgasmo, para encontrar fé na dúvida, para cantar um louvor mesmo quando nosso coração está em pedaços. Ela nos lembra que a jornada da vida é uma sucessão de acordes maiores e menores, de quedas e elevações.
Então, da próxima vez que você ouvir “Hallelujah”, não importa qual versão, tente ouvir além da melodia familiar. Ouça o eco de um poeta que passou cinco anos lutando com anjos e demônios para encontrar as palavras certas. Ouça a história de reis falíveis, de amor que destrói e redime. E, acima de tudo, ouça o seu próprio coração.
Qual é o seu Aleluia hoje? É um grito de alegria? Um sussurro de dor? Um suspiro de rendição? Seja qual for, saiba que há uma explosão de luz nele. Seja ele sagrado ou quebrado, ele tem valor. E essa, talvez, seja a lição mais profunda que o Guardião das Canções, Leonard Cohen, nos deixou.
Letra Completa (Versão Original de 1984)
Composição: Leonard Cohen
Eu ouvi dizer que havia um acorde secreto Que Davi tocava e agradava ao Senhor Mas você não liga muito para música, liga? É assim, a quarta, a quinta A menor cai, a maior ascende O Rei perplexo compondo Aleluia
Aleluia, Aleluia Aleluia, Aleluia
Sua fé era forte, mas você precisava de prova Você a viu se banhando no telhado A beleza dela e o luar arruinaram você Ela te amarrou à cadeira da cozinha E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo E dos seus lábios ela tirou o Aleluia
Aleluia, Aleluia Aleluia, Aleluia
Você diz que eu disse o nome em vão Eu nem sei o nome Mas se eu fiz, bem, realmente, o que você tem a ver com isso? Há uma luz incandescente em cada palavra Não importa o que você ouviu O Aleluia sagrado ou o quebrado
Aleluia, Aleluia Aleluia, Aleluia
Eu fiz o meu melhor, eu sei que não foi muito Eu não podia sentir, então eu tentei tocar Eu disse a verdade, eu não vim aqui para te enganar E mesmo que tudo tenha dado errado Eu estarei aqui, diante do Senhor dos Cânticos Com nada, nada em minha língua além de Aleluia
Aleluia, Aleluia…
Link para o video: https://www.youtube.com/watch?v=ttEMYvpoR-k
Bibliografia Consultada
1.Light, Alan. The Holy or the Broken: Leonard Cohen, Jeff Buckley, and the Unlikely Ascent of ‘Hallelujah’. Atria Books, 2012.
2.Rolling Stone. “How Leonard Cohen’s ‘Hallelujah’ Brilliantly Mingled Sex, Religion”. Dezembro de 2019.
3.Forward. “How Jewish is Leonard Cohen’s ‘Hallelujah?'”. Maio de 2021.
4.Entrevistas diversas com Leonard Cohen (1984-2016).
5.Bible Odyssey. “Leonard Cohen’s ‘Hallelujah'”. Abril de 2015.
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