
Imagine o cenário: o mundo está em guerra, e você, um jovem engenheiro naval, encontra-se a trabalho longe de casa. É o seu último dia na cidade, e a ansiedade para rever sua esposa e seu filho pequeno é quase palpável. Você caminha para o estaleiro uma última vez quando, de repente, o céu se incendeia com uma luz que desafia a própria natureza, um clarão que ele mais tarde descreveria como “o relâmpago de um enorme sinalizador de magnésio”. Em um instante, o mundo ao seu redor se desfaz em um pesadelo de fogo, som e fúria. Este foi o início da inacreditável jornada de Tsutomu Yamaguchi, o homem que não apenas sobreviveu a uma, mas a duas bombas atômicas.
Em 6 de agosto de 1945, a cidade de Hiroshima foi o palco do primeiro ataque nuclear da história. Tsutomu Yamaguchi, então com 29 anos e funcionário da Mitsubishi Heavy Industries, estava a menos de três quilômetros do epicentro da explosão. Com uma presença de espírito forjada em treinamentos de defesa aérea, ele mergulhou em uma vala de irrigação, um ato reflexo que, por uma fração de segundo, o separou da aniquilação completa. A onda de choque o arrancou do chão, girando-o como um tornado antes de arremessá-lo em um campo de batatas. Ao abrir os olhos, a escuridão e o silêncio mórbido haviam tomado o lugar da manhã ensolarada. Seus tímpanos estavam perfurados, e seu corpo, coberto por queimaduras severas. Ele estava vivo, mas o inferno havia apenas começado.

Atordoado e ferido, Yamaguchi vagou por uma paisagem apocalíptica. Edifícios transformados em esqueletos de concreto, incêndios que ainda crepitavam com uma fúria sobrenatural e os contornos carbonizados de vidas interrompidas compunham o cenário de sua jornada. Em sua busca desesperada para voltar para casa, em Nagasaki, ele teve que nadar por um rio repleto de corpos, uma imagem que o assombraria pelo resto de seus dias. Após uma noite em um abrigo antiaéreo e uma agoniante viagem de trem, ele finalmente chegou à sua cidade natal na manhã de 8 de agosto, um espectro de si mesmo, coberto de bandagens e febril.
“Pensei que a nuvem em forma de cogumelo tinha me seguido de Hiroshima.”
Sua família mal o reconheceu. Um médico, seu antigo colega de escola, tratou de suas feridas, mas a gravidade de seu estado era inegável. Contudo, o senso de dever de Yamaguchi, ou talvez a necessidade de se agarrar a alguma normalidade em meio ao caos, o impeliu a se apresentar ao trabalho na manhã seguinte, 9 de agosto. Foi em uma sala de escritório da Mitsubishi, enquanto relatava a inacreditável destruição de Hiroshima a um diretor cético, que o destino, em sua mais cruel e irônica reviravolta, decidiu intervir novamente. Seu superior o acusava de loucura, incapaz de conceber que uma única bomba pudesse varrer uma cidade do mapa. Foi então que, pela segunda vez em 72 horas, o mundo de Yamaguchi explodiu em uma luz branca e ofuscante.
“Pensei que a nuvem em forma de cogumelo tinha me seguido de Hiroshima”, ele recordaria mais tarde. A segunda bomba atômica, ainda mais potente que a primeira, havia sido detonada sobre Nagasaki. Novamente, Yamaguchi estava a cerca de três quilômetros do marco zero. A onda de choque estilhaçou as janelas, e a sala foi invadida por destroços. Desta vez, porém, a geografia montanhosa de Nagasaki e a estrutura reforçada do prédio ofereceram uma proteção fortuita. Ele sobreviveu, relativamente incólume, mas com uma nova dose de radiação percorrendo seu corpo e a certeza de que havia testemunhado o impensável duas vezes.

O que se seguiu foi uma luta desesperada pela vida. A dupla exposição à radiação cobrou seu preço: seus cabelos caíram, as feridas em seus braços gangrenaram e ele vomitava incessantemente. Enquanto o Japão anunciava sua rendição em 15 de agosto, Yamaguchi estava em um abrigo com sua família, lutando contra uma febre que o consumia, convencido de que seus dias estavam contados. “Não tive nenhum sentimento sobre isso”, disse ele sobre o fim da guerra. “Eu estava gravemente doente… Pensei que estava prestes a cruzar para o outro lado.”
Mas Tsutomu Yamaguchi não cruzou. Ele resistiu. Lentamente, contra todas as probabilidades, ele se recuperou. Sua esposa, Hisako, que foi envenenada pela chuva negra radioativa, e seu filho, Katsutoshi, também sobreviveram. Yamaguchi viveu para ver o Japão se reerguer das cinzas, trabalhou como tradutor para as forças de ocupação, lecionou e, eventualmente, retomou sua carreira como engenheiro. Ele e sua esposa tiveram mais duas filhas, e ele levou uma vida relativamente normal, se é que a normalidade é possível para alguém que carregava tais memórias.
Por décadas, Yamaguchi guardou seu trauma para si, processando o horror através da poesia. Ele era um hibakusha, um sobrevivente da bomba, mas sua história era única. Somente em 2009, um ano antes de sua morte por câncer de estômago aos 93 anos, o governo japonês o reconheceu oficialmente como um nijyuu hibakusha – uma “pessoa bombardeada duas vezes”. Estima-se que cerca de 165 pessoas possam ter passado pela mesma provação, mas Yamaguchi foi o único a receber tal distinção.
“A razão pela qual odeio a bomba atômica é por causa do que ela faz com a dignidade dos seres humanos.”
Em seus últimos anos, o silêncio deu lugar a uma missão. Ele sentiu que era seu destino falar, que sua sobrevivência milagrosa não poderia ser em vão. “A razão pela qual odeio a bomba atômica é por causa do que ela faz com a dignidade dos seres humanos”, declarou ele. Yamaguchi viajou o mundo, falou perante as Nações Unidas e compartilhou sua história, não como um conto de sobrevivência, mas como um apelo apaixonado pelo desarmamento nuclear. “Minha dupla exposição à radiação agora é um registro oficial do governo”, disse ele. “Pode contar à geração mais jovem a história horripilante dos bombardeios atômicos mesmo depois que eu morrer.”

A história de Tsutomu Yamaguchi é um testamento à resiliência do espírito humano, mas também um lembrete sombrio da nossa capacidade de autodestruição. Ele não foi apenas um homem que enganou a morte; ele se tornou a personificação da advertência contra o poder que o sol empresta, um poder que, em mãos humanas, pode criar um inferno na Terra. Sua vida, marcada por uma tragédia de proporções cósmicas, nos força a confrontar uma verdade desconfortável sobre o legado que deixamos para as gerações futuras.
“Minha dupla exposição à radiação agora é um registro oficial do governo. Pode contar à geração mais jovem a história horripilante dos bombardeios atômicos mesmo depois que eu morrer.”
Diante de uma história tão extraordinária e aterradora, que nos mostra o quão perto estivemos – e ainda estamos – do abismo, como podemos garantir que a voz de Tsutomu Yamaguchi e o eco das duas explosões que ele sobreviveu nunca se desvaneçam na complacência da história?
Bibliografia Consultada
•ANDREWS, Evan. The Man Who Survived Two Atomic Bombs. HISTORY. Disponível em: https://www.history.com/articles/the-man-who-survived-two-atomic-bombs. Acesso em: 08 out. 2025.
•MCEVOY, Colin. Tsutomu Yamaguchi: The Man Who Survived Both Atomic Bombings. Biography.com. Disponível em: https://www.biography.com/history-culture/a44577392/tsutomu-yamaguchi-hiroshima-and-nagasaki-bombing-survivor. Acesso em: 08 out. 2025.
•FERNANDES, Bruno. Hiroxima e Nagasáqui: O homem que sobreviveu duas vezes. National Geographic Portugal. Disponível em: https://www.nationalgeographic.pt/historia/hiroxima-nagasaqui-japao-homem-que-sobreviveu-duas-vezes-tsutomu-yamaguchi_4065. Acesso em: 08 out. 2025.
•Wikipedia. Tsutomu Yamaguchi. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Tsutomu_Yamaguchi. Acesso em: 08 out. 2025.
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