O Império Contra-Ataca em 38 Minutos: A Guerra que o Tempo Esqueceu

Imagine um conflito armado, uma declaração de guerra entre duas nações soberanas, com navios de guerra, canhões e milhares de soldados. Agora, imagine que tudo isso — a tensão diplomática, o ultimato, o bombardeio e a rendição — se desenrolou no tempo que você leva para assistir a um episódio da sua série favorita. Parece ficção, mas em 27 de agosto de 1896, a história registrou seu conflito mais absurdamente breve: a Guerra Anglo-Zanzibar. Em menos de 45 minutos, um sultanato insular foi subjugado, um palácio foi reduzido a escombros e o poder implacável de um império global foi reafirmado de forma brutal e incontestável. Esta não é apenas a história da guerra mais curta do mundo; é um retrato vívido da era do imperialismo, um estudo de caso sobre poder, orgulho e a futilidade da resistência contra uma força esmagadoramente superior.

Para entender como uma guerra pôde ser tão efêmera, precisamos voltar no tempo, para as águas azul-turquesa do Oceano Índico e para o Sultanato de Zanzibar. No final do século XIX, Zanzibar era um próspero entreposto comercial, uma ilha estratégica na costa da Tanganica (atual Tanzânia), cujo poder se estendia por partes da África Oriental. Desde 1858, a ilha era independente de Omã, mas sua soberania era cada vez mais uma miragem. As potências europeias, em sua voraz “Partilha da África”, já haviam fincado suas garras na região. O Reino Unido, em particular, via Zanzibar com olhos cobiçosos, não apenas por sua importância comercial, mas como um peão crucial em seu tabuleiro geopolítico e em sua cruzada moral contra o comércio de escravos, uma prática profundamente enraizada na economia e na cultura da elite árabe de Zanzibar.

Em 1890, através do Tratado de Helgoland-Zanzibar, a Alemanha cedeu seus interesses na ilha à Grã-Bretanha, e Zanzibar tornou-se oficialmente um protetorado britânico. Na prática, isso significava que o sultão reinava, mas não governava. O poder real estava nas mãos do cônsul britânico, que, entre outras prerrogativas, detinha o direito de veto sobre a sucessão ao trono. Era uma paz frágil, mantida por uma diplomacia de fachada que mal disfarçava a relação de mestre e servo. Os sultões que cooperavam com os britânicos, como Hamad bin Thuwaini, que ascendeu em 1893, mantinham seus títulos e privilégios. No entanto, sob a superfície, a insatisfação fervilhava. A elite local ressentia-se da crescente interferência britânica e, principalmente, da pressão para abolir o lucrativo comércio de escravos.

A faísca que incendiou o barril de pólvora veio na manhã de 25 de agosto de 1896. O sultão Hamad bin Thuwaini morreu subitamente em seu palácio. As circunstâncias de sua morte foram, no mínimo, suspeitas, e os olhares se voltaram para seu sobrinho de 29 anos, Khalid bin Barghash. Ignorando o protocolo e o tratado que exigia a aprovação britânica, Khalid agiu com uma audácia que beirava a imprudência. Ele se mudou para o complexo do palácio, declarou-se o novo sultão e começou a reunir suas forças. Para os britânicos, a escolha era clara: Hamud bin Muhammed, um candidato mais maleável e alinhado aos seus interesses, deveria ser o novo governante. A atitude de Khalid não era apenas uma quebra de protocolo; era um desafio direto à autoridade do Império Britânico.

O cônsul britânico, Basil Cave, e o general Lloyd Mathews, um britânico que comandava o exército de Zanzibar, tentaram dissuadir Khalid. Eles o alertaram sobre as graves consequências de suas ações, mas o autoproclamado sultão, talvez superestimando sua própria força ou subestimando a determinação britânica, ignorou os avisos. Ao final do dia, cerca de 2.800 homens haviam se reunido para defender o palácio. Era uma força heterogênea, composta pela guarda do palácio, centenas de servos e escravos, e muitos civis recrutados às pressas. Eles posicionaram sua artilharia — uma coleção que incluía metralhadoras Maxim e Gatling, um antigo canhão de bronze e, ironicamente, doze peças de artilharia de campo presenteadas pelo Kaiser Guilherme II da Alemanha — de frente para o porto, apontada para os navios de guerra britânicos que ali ancoravam. A marinha de Khalid, se é que se pode chamar assim, consistia em um único iate real de madeira, o HHS Glasgow, que também se preparou para o combate.

A resposta britânica foi rápida e metódica. O contra-almirante Harry Rawson, a bordo do navio-almirante HMS St George, assumiu o comando da frota, que contava com cinco modernos navios de guerra. Mulheres e crianças britânicas foram evacuadas para um navio seguro, e os navios mercantes foram retirados do porto. A tensão era palpável. O cônsul americano, Richard Dorsey Mohun, descreveria mais tarde a noite anterior ao conflito: “O silêncio que caiu sobre Zanzibar era aterrador. Normalmente tambores rufavam ou bebês choravam, mas nessa noite não havia absolutamente nenhum som”. Era a calmaria antes da tempestade.

Na manhã de 27 de agosto, a diplomacia deu seu último suspiro. Rawson enviou um ultimato final a Khalid: baixe sua bandeira e deixe o palácio até as 9h, ou o fogo seria aberto. A resposta de Khalid, enviada por um mensageiro, foi desafiadora: “Nós não temos nenhuma intenção de retirar nossa bandeira e não acreditamos que você abrirá fogo sobre nós”. Foi um erro de cálculo fatal. Pontualmente às 9h, o prazo expirou. A bordo do HMS St George, Rawson deu a ordem. Às 9h02, os canhões dos navios HMS Racoon, Thrush e Sparrow rugiram, e o inferno desabou sobre o palácio de Zanzibar.

O que se seguiu foi menos uma batalha e mais uma execução. O palácio, construído em grande parte de madeira, não era uma fortaleza. Os projéteis explosivos britânicos o atingiram com uma fúria devastadora. O primeiro tiro, disparado pelo HMS Thrush, destruiu um canhão árabe de doze polegadas, neutralizando uma das principais peças de artilharia dos defensores. Em minutos, o palácio e o harém anexo estavam em chamas. A artilharia de Khalid foi silenciada antes mesmo que pudesse oferecer uma resistência significativa. O valente, porém obsoleto, HHS Glasgow tentou uma reação, disparando seus canhões contra o imponente HMS St George. A resposta foi imediata e letal. O iate real foi rapidamente afundado, seus mastros permanecendo visíveis acima da linha d’água no porto raso, como um túmulo improvisado. Sua tripulação, em um ato de rendição, içou uma bandeira britânica e foi resgatada.

Enquanto o palácio queimava, Khalid bin Barghash, percebendo a total futilidade de sua posição, fugiu. Ele buscou e conseguiu asilo no consulado alemão, escapando da captura iminente. Deixou para trás seus seguidores para enfrentar a ira britânica. Às 9h40, a bandeira do sultão, que tremulava desafiadoramente sobre o palácio, foi finalmente derrubada pelos bombardeios. Com a queda da bandeira, o fogo cessou. A guerra havia terminado.

O saldo do conflito foi terrivelmente assimétrico. Do lado de Zanzibar, as estimativas apontam para cerca de 500 baixas, entre mortos e feridos. O palácio, um símbolo da soberania do sultanato, estava em ruínas. Do lado britânico, o custo foi irrisório: apenas um marinheiro gravemente ferido. A demonstração de força fora tão eficiente quanto brutal. Na mesma tarde, os britânicos instalaram seu candidato, Hamud bin Muhammed, como o novo sultão. Ele prontamente concordou com todas as exigências britânicas, incluindo a abolição da escravidão no ano seguinte. Zanzibar, como estado soberano, deixara de existir, tornando-se um governo fantoche, uma peça firmemente controlada no grande jogo do Império Britânico.

A Guerra Anglo-Zanzibar, registrada no Guinness Book como a mais curta da história, é mais do que uma curiosidade histórica. Ela é um microcosmo da era imperialista, um exemplo gritante da “diplomacia da canhoneira” — a política de usar a força naval para intimidar e subjugar nações mais fracas. A velocidade e a desproporção do conflito revelam a imensa lacuna tecnológica e militar que existia entre as potências industriais europeias e o resto do mundo. Foi uma lição brutal sobre a nova ordem mundial, onde a soberania era um privilégio concedido pelos poderosos, e não um direito inerente.

A história de Khalid bin Barghash é a de um homem que ousou desafiar um império no auge de seu poder e pagou o preço. Sua resistência, embora breve e malfadada, simboliza a luta desesperada de muitas nações contra a maré avassaladora do colonialismo. O bombardeio de seu palácio não foi apenas um ato de guerra; foi uma mensagem, enviada com a precisão de um projétil naval, para todos que ousassem questionar a autoridade da Grã-Bretanha. A fumaça que subiu dos escombros do palácio de Zanzibar em 27 de agosto de 1896 marcou o fim de uma era para a ilha e a consolidação de outra, dominada por uma bandeira que não era a sua.

Ao olharmos para este evento, mais de um século depois, somos forçados a refletir sobre a natureza do poder e da soberania. A história é, muitas vezes, contada pelos vencedores, e a narrativa da Guerra Anglo-Zanzibar não é exceção. Ela é frequentemente apresentada como um episódio quase cômico, uma nota de rodapé bizarra nos anais da história militar. Mas para os quinhentos zanzibaritas que perderam suas vidas naquela manhã, e para a nação que perdeu sua independência em menos de uma hora, a guerra foi tudo, menos cômica. Ela foi uma tragédia rápida e impiedosa. Diante da esmagadora força da tecnologia e da ambição imperial, até que ponto a coragem e o desafio podem realmente alterar o curso da história?


Bibliografia Consultada

1.Wikipedia, a enciclopédia livre. “Guerra Anglo-Zanzibari.” Acessado em 8 de outubro de 2025. https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Anglo–Zanzibari

2.Britannica, The Editors of Encyclopaedia. “Anglo-Zanzibar War.” Encyclopædia Britannica, 20 de agosto de 2025. https://www.britannica.com/event/Anglo-Zanzibar-War


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