Orelha Morreu. E Quantos Milhares de Pessoas Precisam Morrer Para Chocar Você?

Nossa indignação tem dono?

Vamos começar com uma história que, provavelmente, chegou até você. Orelha. Um nome simples, quase afetuoso, para um cão de comunidade em Santa Catarina. Um daqueles vira-latas que se tornam patrimônio afetivo de uma rua, de um bairro. Orelha não tinha pedigree, mas tinha uma rotina, pessoas que o alimentavam, um território que ele considerava seu lar. E então, a brutalidade. Cinco jovens, em um ato de crueldade que a mente sã se recusa a processar, o torturaram e mataram. A história, impulsionada por vídeos e relatos chocados, explodiu. Viralizou. A comoção foi instantânea, avassaladora e, sejamos honestos, justificada. Ver a inocência ser alvo de uma maldade tão abjeta desperta em nós um senso primitivo de injustiça. Queremos punição, gritamos por justiça, compartilhamos a dor. Orelha, em sua morte trágica, tornou-se um símbolo, um mártir da causa animal, e sua história ecoou pelos quatro cantos do país, estampando portais de notícia e dominando as conversas nas redes sociais.

E isso é bom. Demonstra que não perdemos nossa capacidade de sentir empatia. Que a crueldade gratuita ainda nos choca. Mas, e se eu te dissesse que, enquanto chorávamos por Orelha, um genocídio estava em pleno andamento? E não em um passado distante, mas agora, neste exato momento. No Sudão, desde 2023, mais de 150 mil pessoas já foram mortas em um conflito sangrento que as Nações Unidas e os Estados Unidos já classificam, em partes, como genocídio. Populações inteiras, como os Fur, Zaghawa e Masalit, estão sendo sistematicamente caçadas e exterminadas em Darfur. Milhares fogem para campos de refugiados superlotados, apenas para encontrar mais morte, fome e desespero. Você viu a foto de alguma dessas vítimas no seu feed hoje? Sabe o nome de alguma delas?

Vamos um pouco mais longe. Na Nigéria, grupos extremistas como o Boko Haram e o ISWAP não apenas travam uma guerra contra o Estado, mas promovem uma crise humanitária de proporções catastróficas. Aldeias são queimadas, cristãos são perseguidos e mortos, e mulheres e meninas são sequestradas, estupradas e transformadas em escravas sexuais. É uma rotina de terror que já deslocou milhões de pessoas de suas casas, criando uma legião de famintos e desabrigados. A violência é o pão de cada dia, mas as notícias sobre ela raramente furam a bolha do nosso cotidiano digital.

E no Irã? Enquanto o mundo assistia à Copa do Mundo, uma revolução silenciosa e sangrenta tomava as ruas. Mulheres, cansadas de décadas de opressão sob um regime teocrático, lideraram protestos massivos, queimando seus hijabs em praça pública. A resposta do governo foi, e continua sendo, de uma brutalidade atroz. Manifestantes são mortos a tiros, presos, torturados e até executados em público para servir de exemplo. Jovens que pediam por liberdade e dignidade tiveram suas vidas ceifadas, mas suas histórias, seus rostos, seus nomes, não geraram a mesma onda de solidariedade que a morte de um único cão em Santa Catarina.

Por quê? A pergunta é desconfortável, quase uma ofensa. Como ousa comparar a vida de um animal com a de milhares de seres humanos? Mas a questão não é de comparação, e sim de percepção. Não se trata de minimizar a dor pela morte de Orelha, mas de maximizar nossa consciência sobre a dor de outros. A vida de Orelha era preciosa. E a vida de um sudanês, de uma nigeriana, de um iraniano? Não é? Por que uma tragédia nos mobiliza a ponto de exigirmos leis mais duras e a cabeça dos culpados, enquanto outras, de uma magnitude incomparavelmente maior, mal merecem um scroll rápido na tela do celular?

É aqui que precisamos falar sobre a arquitetura da nossa indignação. Ela não é espontânea. Ela é, em grande parte, construída, moldada e direcionada. E os arquitetos são muitos.

Primeiro, temos a mídia tradicional, o velho “Quarto Poder”. Jornalistas e editores operam sob uma lógica de “noticiabilidade”. O que vende? O que gera cliques? O que é fácil de digerir? Uma história como a de Orelha é perfeita: tem um vilão claro (os jovens psicopatas), uma vítima inocente (o cão amado por todos), e um apelo emocional direto e universal. É uma narrativa simples, preto no branco. Já um genocídio em Darfur é complexo. Envolve facções com nomes estranhos (RSF, SAF), um histórico político complicado, interesses geopolíticos obscuros. Explicar isso demanda tempo, espaço e um esforço intelectual que, francamente, a maioria do público não está disposta a fazer. A mídia, antecipando essa resistência, opta pelo caminho mais fácil, pela notícia que “engaja” mais. A proximidade também é um fator. Santa Catarina é aqui do lado. Sudão é um lugar abstrato no mapa da África. Sentimos mais por aquilo que nos parece próximo, mesmo que essa proximidade seja apenas geográfica ou cultural.

Mas o Quarto Poder não está mais sozinho. Hoje, vivemos sob a influência de uma força muito mais sutil e poderosa: o Quinto Poder. Ele não tem um rosto, uma redação ou um código de ética. Ele é um emaranhado de algoritmos, influenciadores digitais e bolhas de informação. É o poder que decide o que você vê – e o que você não vê – no seu feed do Instagram, do TikTok, do X. E a principal moeda desse novo poder é o engajamento.

Os algoritmos que governam nossas vidas digitais não estão preocupados com a verdade, a relevância ou a importância de uma notícia. Eles estão programados para um único objetivo: manter você na plataforma o maior tempo possível. E como eles fazem isso? Entregando conteúdo que provoca uma reação emocional forte e imediata. Raiva, fofura, choque, riso. A crueldade contra um animal é um gatilho emocional potentíssimo. Gera compartilhamentos, comentários raivosos, uma sensação de comunidade unida contra um mal comum. É o tipo de conteúdo que o algoritmo adora, e por isso ele o amplifica, o espalha, o transforma em um fenômeno viral.

Por outro lado, a imagem de uma criança faminta em um campo de refugiados no Sudão gera um sentimento diferente: tristeza, impotência, culpa. São emoções desconfortáveis, que nos fazem querer desviar o olhar, fechar o aplicativo. O algoritmo percebe isso. Ele nota que você não clicou, não comentou, não compartilhou. E, na próxima vez, ele simplesmente não te mostra mais aquele tipo de conteúdo. Ele te “protege” da complexidade e do desconforto do mundo real, aprisionando você em uma bolha onde a maior tragédia do dia é a morte de um cão, por mais triste que ela seja.

Os influenciadores, peças-chave nesse ecossistema, muitas vezes seguem a mesma lógica. Falar sobre a causa animal “dá like”, gera uma imagem positiva de empatia e cuidado. Falar sobre um massacre na Nigéria pode ser visto como “muito pesado”, “político demais”, e pode afastar seguidores e patrocinadores. A indignação, nesse contexto, torna-se uma performance, uma commodity. Escolhe-se as causas que geram mais capital social, e não as mais urgentes.

Soma-se a isso a nossa própria psicologia. É o que os especialistas chamam de “viés da vítima identificável”. É muito mais fácil para o nosso cérebro criar um laço empático com um indivíduo com nome e rosto – Orelha – do que com “150 mil mortos”. O número é uma estatística fria, abstrata. O cãozinho da esquina é real. Sentimos a dor de um, mas nos tornamos anestesiados pela escala do sofrimento de muitos. Não é que sejamos pessoas ruins; é que nosso hardware emocional não foi projetado para processar tragédias em massa. E os arquitetos da nossa atenção sabem disso e exploram essa nossa falha de sistema sem piedade.

Então, somos manipulados? A resposta é um retumbante sim. Somos manipulados pela mídia que simplifica o mundo para caber em manchetes, pelos algoritmos que trocam relevância por engajamento, e pela nossa própria preguiça mental e emocional de encarar as verdades mais duras do nosso tempo. A compaixão que sentimos por Orelha é genuína e valiosa. Ela é a prova de que a semente da humanidade ainda está viva em nós. Mas ela não pode ser o fim da linha. Ela precisa ser o ponto de partida.

Precisamos usar essa mesma capacidade de sentir, essa mesma indignação, para rasgar as cortinas que nos são impostas. Precisamos nos esforçar ativamente para procurar as notícias que não chegam até nós, para entender as crises que são complexas demais para um post de 15 segundos, para dar nome e rosto às vítimas que os algoritmos decidiram esconder. A vida de uma pessoa em um vilarejo remoto da Nigéria vale tanto quanto a do nosso vizinho. A dor de uma mãe iraniana que perdeu o filho para a repressão é tão real quanto a nossa dor por um animal indefeso.

Orelha não morreu em vão se sua morte nos servir de espelho. Um espelho que reflete não apenas nossa capacidade de amar, mas também nossa chocante e perigosa seletividade em distribuir essa empatia. A verdadeira barbárie não está apenas no ato de cinco jovens cruéis, mas na nossa indiferença coletiva diante de milhões de vidas que são ceifadas todos os dias, longe dos nossos olhos e, perigosamente, longe dos nossos corações.

A questão, portanto, não é se devemos nos importar menos com os animais, mas se conseguiremos, finalmente, nos importar mais com a nossa própria espécie. A nossa indignação tem dono, e ele tem sido um algoritmo frio e calculista. Está na hora de retomarmos o controle.

Será que estamos dispostos a pagar o preço emocional de olhar para o abismo, ou vamos continuar nos contentando com as tragédias confortáveis que a nossa bolha nos oferece?


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Conflitos Internacionais

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2.Council on Foreign Relations (2025). “Civil War in Sudan | Global Conflict Tracker”.

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4.G1 Globo (2025). “Guerra no Sudão: milhares fogem para campos superlotados”.

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7.Amnistia Internacional (2025). “Nigéria: Raparigas sobreviventes do Boko Haram”.

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10.Wikipedia (2025-2026). “Protestos no Irã em 2025–2026”.

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12.G1 Globo (2026). “Entenda a escalada dos protestos no Irã”.

13.CNN Brasil (2026). “Entenda a onda de protestos no Irã”.

Manipulação Midiática e Algoritmos

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2.The Conversation (2026). “Redes sociais, algoritmos e riscos”.

3.UNIFESP (2021). “Precisamos falar sobre algoritmos”.

4.Migalhas (2025). “Responsabilidade civil das redes sociais por manipulação algorítmica”.

5.BBC (2024). “Como algoritmos mudaram a maneira como interagimos”.

6.Veja (2025). “Como os algoritmos influenciam o acesso à informação”.

7.Jovem Pan (2026). “BBB, violência contra a mulher e indignação seletiva”.

8.UFPR (2018). “Exposição seletiva e efeitos das Fake News”.

9.Deutsche Welle (2025). “Indignação com ‘Adultização’ não pode ser seletiva”.

10.SAPO (2024). “Comunicação, poder e influência: era do 5º estado”.

11.USP (2017). “O ‘quinto poder’ exerce poder de fato?”.


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