
As raízes do Carnaval: as festas pagãs da antiguidade romana, como a Saturnália, já celebravam a inversão social e os excessos.
Quando as luzes dos holofotes se apagam, a última nota do samba se dissipa no ar e o brilho efêmero das fantasias dá lugar à rotina, uma pergunta ecoa na ressaca da maior festa popular do planeta: o que realmente celebramos no Carnaval? Para milhões, a resposta parece óbvia: a alegria, a música, a liberdade dos corpos, a catarse coletiva. Mas sob a superfície cintilante de lantejoulas e sorrisos, pulsa uma história muito mais antiga e complexa, um espelho que reflete não apenas a euforia de um povo, mas também as sombras de uma sociedade que, por alguns dias, parece se permitir esquecer de sua própria humanidade.
Na Grécia Antiga, as festas em honra a Dioniso, o deus do vinho, do êxtase e da transgressão, já continham a semente da folia carnavalesca. Eram dias de puro delírio, onde as barreiras sociais eram dissolvidas em vinho e dança, e os cidadãos se entregavam a uma liberdade que beirava a devassidão, um escape necessário da rigidez da vida cotidiana .
Esta não é uma crônica sobre a beleza dos desfiles ou a energia contagiante dos blocos de rua. É um convite para uma jornada diferente, uma viagem aos porões da história e aos recônditos da psique coletiva que o Carnaval expõe. Vamos despir a festa de seus adereços modernos para encontrar suas raízes nuas, fincadas em terras pagãs e rituais de inversão, e então, com o mesmo olhar crítico, observar como essa herança ancestral se manifesta hoje, em um espetáculo que oscila perigosamente entre a celebração da vida e a apologia do vazio.
O Grito Antes da Cruz: As Origens Pagãs da Folia
Muito antes de o primeiro tamborim soar no Brasil, o espírito do Carnaval já percorria o mundo antigo sob outros nomes e com outros deuses. Para entender a festa de hoje, precisamos voltar no tempo, para uma era em que o calendário era regido pela natureza, e os rituais, pela necessidade de celebrar a fertilidade e a sobrevivência. Na Grécia Antiga, as festas em honra a Dioniso, o deus do vinho, do êxtase e da transgressão, já continham a semente da folia carnavalesca. Eram dias de puro delírio, onde as barreiras sociais eram dissolvidas em vinho e dança, e os cidadãos se entregavam a uma liberdade que beirava a devassidão, um escape necessário da rigidez da vida cotidiana .
Em Roma, esse espírito se manifestava em celebrações como a Saturnália e a Lupercália. Durante a Saturnália, em dezembro, a ordem social era virada de cabeça para baixo: escravos se tornavam senhores, e senhores serviam seus escravos. Era uma inversão simbólica, um reconhecimento de que a estrutura social era uma construção frágil, que podia ser temporariamente suspensa em nome de uma alegria caótica e unificadora . A Lupercália, em fevereiro, era um rito de fertilidade ainda mais selvagem, celebrando o fim do inverno e a promessa da primavera com rituais que hoje nos pareceriam bárbaros, mas que para os antigos eram essenciais para garantir a continuidade da vida e a fecundidade da terra.
Essas festas não eram apenas desculpas para a glutonaria e a licenciosidade. Elas cumpriam uma função social vital: eram válvulas de escape. Ao permitir a transgressão controlada dentro de um período específico, a sociedade garantia a manutenção da ordem no resto do ano. Era o caos organizado, a desordem ritualizada que, paradoxalmente, reforçava a ordem. O riso, a zombaria, o excesso e a quebra de tabus eram as ferramentas para essa catarse coletiva.
Com a ascensão do Cristianismo, a Igreja se viu diante de um dilema. Como suprimir rituais tão populares e profundamente enraizados na cultura dos povos? A solução não foi a proibição, mas a absorção. A Igreja, em sua sabedoria estratégica, “cristianizou” essas festas pagãs. O Carnaval, como o conhecemos, nasceu dessa fusão. O nome, derivado do latim “carnis levale”, significa “adeus à carne” . A festa foi posicionada estrategicamente no calendário litúrgico como a última explosão de alegria e excessos antes dos quarenta dias de jejum, penitência e privação da Quaresma, que antecedem a Páscoa . Assim, a Igreja não apenas controlou a festa, mas lhe deu um novo significado: uma despedida dos prazeres mundanos antes do mergulho na devoção espiritual. A transgressão foi mantida, mas agora tinha um propósito e um limite claros, sancionados pela própria instituição que combatia o paganismo.
Do Entrudo ao Sambódromo: A Metamorfose Brasileira
O Carnaval desembarcou no Brasil nos porões dos navios portugueses, trazendo consigo a tradição do “entrudo”, uma brincadeira caótica e muitas vezes violenta, onde o objetivo era sujar uns aos outros com farinha, ovos, água e o que mais estivesse à mão . Era uma festa popular, desorganizada e essencialmente participativa, que tomava as ruas do Brasil Colônia.
Com o tempo, a elite, buscando se distanciar dessa manifestação “bárbara”, começou a promover bailes de máscaras inspirados nos carnavais de Veneza e Paris. O Carnaval, então, se partiu em dois: o dos salões, polido e europeizado, e o das ruas, popular e anárquico. Foi no final do século XIX e início do século XX, com a abolição da escravatura e a formação de uma nova cultura urbana no Rio de Janeiro, que esses dois carnavais começaram a se fundir, dando origem a algo inteiramente novo.
Das rodas de samba nos quintais das “tias” baianas, dos ranchos e dos cordões, nasceram as escolas de samba. Elas trouxeram para a festa uma organização, uma narrativa e uma estética que uniam a herança africana à estrutura dos desfiles europeus. O samba, com sua síncope contagiante e suas letras que narravam o cotidiano e a história do povo, tornou-se a trilha sonora oficial da nação em festa . O Carnaval deixou de ser apenas uma brincadeira para se tornar uma forma de arte, uma expressão da identidade cultural brasileira e, inevitavelmente, um negócio lucrativo.
A construção do Sambódromo, na década de 1980, foi o ápice dessa transformação. O que era uma festa espontânea das ruas foi confinado a uma passarela, televisionado para o mundo e transformado em um espetáculo de proporções monumentais. A festa do povo se tornou um produto de exportação, e a espontaneidade deu lugar à competição e ao profissionalismo.

O Carnaval contemporâneo: entre a alegria superficial e o vazio interior, a festa revela a dualidade da sociedade moderna.
O Lado Sombrio da Fantasia: Hedonismo, Egoísmo e a Suspensão da Humanidade
E assim chegamos aos dias de hoje. O Carnaval moderno é uma máquina poderosa, um motor econômico e um palco para a mais exuberante expressão da criatividade popular. Mas o que acontece quando a música fica alta demais e as luzes fortes demais, a ponto de nos cegar para o que está acontecendo nos bastidores dessa grande ópera popular?
É aqui que a máscara da alegria começa a rachar, revelando um rosto perturbador. O espírito de inversão social dos antigos rituais parece ter sido pervertido em uma licença para a suspensão não da ordem social, mas da própria empatia. A liberdade, tão celebrada em marchinhas e sambas-enredo, confunde-se perigosamente com a permissividade. O “eu” se torna o centro do universo, e o “outro” se transforma em um mero objeto para a satisfação de desejos imediatos ou um obstáculo a ser ignorado.
“A liberdade, tão celebrada em marchinhas e sambas-enredo, confunde-se perigosamente com a permissividade. O ‘eu’ se torna o centro do universo, e o ‘outro’ se transforma em um mero objeto para a satisfação de desejos imediatos ou um obstáculo a ser ignorado.”
O hedonismo, a busca incessante pelo prazer, torna-se a única lei. A solidariedade, a bondade e o respeito, valores que sustentam o tecido social, são guardados no armário junto com as roupas do dia a dia. Durante quatro dias, uma parte da sociedade parece assinar um contrato tácito que autoriza o egocentrismo mais desenfreado. A lascívia deixa de ser uma expressão de desejo para se tornar uma imposição, e o “não” de uma mulher, uma barreira sonora a ser transposta pela insistência ou pela força. O corpo, que deveria ser o templo da liberdade, vira território de conquista.
Essa metamorfose comportamental é assustadora. Pessoas que, em seus cotidianos, são pais, mães, profissionais e cidadãos exemplares, vestem uma fantasia de indiferença moral. A festa que deveria unir se torna um campo de batalha de egos, onde a única regra é a busca pelo prazer individual, a qualquer custo. A humanidade do próximo é esquecida, e o que resta é uma massa de corpos anônimos em busca de uma satisfação que se revela sempre fugaz. A catarse coletiva se transforma em uma anestesia coletiva, um entorpecimento dos sentidos e da consciência.
O Mito dos “Filhos do Carnaval”: O que os Números Realmente Dizem
Nesse caldeirão de excessos, floresceu um dos mitos mais persistentes da cultura brasileira: o de que o Carnaval é um período de fertilidade sem precedentes, resultando em um “baby boom” nove meses depois. A imagem é quase poética: os filhos da folia, concebidos no calor da paixão momentânea. Mas, como muitas das fantasias da festa, essa também se desfaz com um simples olhar para a realidade.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do DataSUS contam uma história completamente diferente e surpreendente. Ao contrário da crença popular, os meses de novembro e dezembro, que correspondem a nove meses após a folia de fevereiro/março, estão consistentemente entre os meses com o menor número de nascimentos no Brasil . Em 2023, por exemplo, novembro registrou o menor índice de natalidade do ano inteiro, com apenas 188.411 nascimentos .
“Ao contrário da crença popular, os meses de novembro e dezembro, que correspondem a nove meses após a folia de fevereiro/março, estão consistentemente entre os meses com o menor número de nascimentos no Brasil.”
Então, quando os brasileiros são mais “férteis”? Os números apontam para os meses de março e maio como os picos de nascimentos, com 233.432 e 230.394 nascimentos respectivamente em 2023 . Uma matemática simples nos leva à conclusão de que a maioria das concepções ocorre durante os meses mais frios do inverno. O aconchego do frio, e não o calor da folia, parece ser o verdadeiro catalisador da natalidade no país.
Essa revelação estatística é mais do que uma mera curiosidade. Ela serve como uma poderosa metáfora para a própria natureza do Carnaval. A festa é um terreno fértil para mitos, para narrativas que preferimos acreditar porque elas se encaixam na imagem que criamos do evento. Desconstruir o mito do “baby boom” carnavalesco é um exercício de olhar para além da superfície, de confrontar a realidade por trás da fantasia. É perceber que, muitas vezes, o que tomamos como verdade sobre o Carnaval é apenas mais uma camada de sua elaborada máscara.

O momento da verdade: quando a máscara cai, quem realmente encontramos no espelho?
A Quarta-Feira de Cinzas da Alma
O Carnaval termina, mas a reflexão permanece. A festa, em sua longa jornada das celebrações pagãs ao espetáculo globalizado, sempre foi um espelho de seu tempo. E o que o espelho do nosso Carnaval reflete hoje? Ele nos mostra uma sociedade que anseia por liberdade, mas que muitas vezes a confunde com a ausência de limites e de responsabilidade. Mostra-nos a beleza da criação coletiva, mas também a feiura do individualismo exacerbado. Mostra-nos a alegria contagiante, mas também um vazio que tentamos preencher com barulho, álcool e prazeres instantâneos.
“Talvez a maior transgressão do Carnaval contemporâneo não seja a quebra de tabus sexuais ou sociais, mas a transgressão contra a nossa própria humanidade.”
Talvez a maior transgressão do Carnaval contemporâneo não seja a quebra de tabus sexuais ou sociais, mas a transgressão contra a nossa própria humanidade. Ao nos permitirmos ignorar o outro, ao abraçarmos um egoísmo disfarçado de alegria, estamos nos fantasiando de algo que não somos, ou talvez, revelando o que realmente somos quando as regras são suspensas.
A Quarta-Feira de Cinzas chega como um lembrete da efemeridade da festa e da necessidade de penitência. Mas, para além do simbolismo religioso, ela nos convida a uma reflexão mais profunda. Ao tirarmos a máscara e a fantasia, o que sobra de nós? Será que a suspensão temporária da empatia e do respeito durante o Carnaval não deixa cicatrizes permanentes em nossa alma coletiva, tornando cada vez mais difícil reconstruir os laços de humanidade quando a festa acaba?
O último carro alegórico já passou, o confete já foi varrido das ruas. Agora, no silêncio que se segue, a pergunta final fica no ar, incômoda e necessária: quando nos despimos do personagem que criamos para a folia, quem realmente encontramos no espelho?
Bibliografia Consultada
[1] Brasil Escola. “Origem do Carnaval: surgimento, história, resumo”. Disponível em: <
[2] Toda Matéria. “História e Origem do Carnaval (no Brasil e no mundo )”. Disponível em: <
[3] DW. “As raízes históricas do Carnaval”. Disponível em: <
[4] Wikipédia. “Carnaval”. Disponível em: <
[5] Mundo Educação. “Carnaval: origem, datas, no Brasil”. Disponível em: <
[6] Brasil Escola. “História do Carnaval no Brasil: origem, evolução”. Disponível em: <
[7] Colaborador Golin. “A História do Carnaval: Origens, Sincretismo e Evolução”. Disponível em: <
[8] UFRB. “A origem do Carnaval”. Disponível em: <
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