Mohenjo Daro: A Cidade que Sussurra Segredos de 4.500 Anos

Vista panorâmica das ruínas de Mohenjo Daro ao entardecer — um testemunho silencioso de uma civilização que desapareceu.

Imagine uma metrópole da Idade do Bronze, pulsando com vida nas margens férteis de um grande rio, cujos cidadãos desfrutavam de um planejamento urbano e de sistemas de saneamento que rivalizariam com os de muitas cidades modernas. Um lugar onde a ordem, a limpeza e o comércio floresciam, mas sem a ostentação de palácios, templos grandiosos ou monumentos a reis e rainhas. Essa cidade não é uma utopia de ficção científica, mas sim Mohenjo Daro, um dos maiores e mais enigmáticos sítios arqueológicos do mundo, localizado no atual Paquistão. Construída por volta de 2500 a.C., como um dos principais centros da Civilização do Vale do Indo, Mohenjo Daro foi o lar de uma sociedade sofisticada que desapareceu misteriosamente, deixando para trás um quebra-cabeça que intriga historiadores e arqueólogos há um século. O que aconteceu com essa civilização tão avançada? Por que suas ruas, antes movimentadas, silenciaram? Convidamos você a mergulhar nos segredos do “Monte dos Mortos” e a explorar as histórias, curiosidades e as teorias, por vezes fantásticas, que tentam desvendar o seu passado.

O Berço de uma Civilização Perdida

Contemporânea das grandiosas civilizações do Egito Antigo, da Mesopotâmia e de Creta, a Civilização do Vale do Indo foi uma das três primeiras grandes civilizações do Velho Mundo. Estendendo-se por uma vasta área que hoje abrange o Paquistão, o nordeste do Afeganistão e o noroeste da Índia, ela floresceu por volta de 3300 a.C. a 1300 a.C. No entanto, sua existência permaneceu completamente desconhecida para o mundo moderno até o início do século XX. Foi somente em 1922 que o arqueólogo britânico Sir John Marshall e sua equipe, ao escavarem um monte budista, tropeçaram nas ruínas de uma cidade de tijolos cozidos de uma antiguidade impressionante. Eles haviam redescoberto Mohenjo Daro. O nome, que significa “Monte dos Mortos” na língua local, o sindi, foi dado em tempos modernos; seu nome original, assim como a língua de seu povo, permanece um dos muitos mistérios da cidade.

As escavações revelaram uma cidade de escala e planejamento notáveis. Com uma área de mais de 100 hectares, Mohenjo Daro era uma das maiores e mais avançadas áreas urbanas de seu tempo. A cidade é dividida em duas partes principais: a “Cidadela”, uma área elevada que abrigava as estruturas públicas mais importantes, e a “Cidade Baixa”, uma área residencial e comercial muito maior. A Cidadela, construída sobre uma plataforma de tijolos de barro para se proteger de inundações, era o coração cívico e ritualístico da cidade. É aqui que encontramos a estrutura mais icônica de Mohenjo Daro: o Grande Banho.

Uma Metrópole de Engenheiros e Urbanistas

Nohenjo Daro – Layout da cidade

O Grande Banho é uma obra-prima da engenharia antiga. Trata-se de uma piscina retangular, com cerca de 12 metros de comprimento, 7 metros de largura e 2,4 metros de profundidade, construída com tijolos finamente ajustados e selada com betume natural para garantir sua impermeabilidade. Escadarias em cada extremidade davam acesso à água, e acredita-se que a estrutura era usada para rituais de purificação, refletindo uma possível ideologia centrada na limpeza. Ao lado do Grande Banho, encontram-se os restos de um vasto celeiro, uma estrutura complexa com uma base de tijolos projetada para permitir a circulação de ar e proteger os grãos da umidade e de pragas.

Mas a genialidade dos engenheiros de Mohenjo Daro não se limitava à Cidadela. A Cidade Baixa é um testemunho de um planejamento urbano sem precedentes. As ruas eram traçadas em um padrão de grade quase perfeito, com vias principais correndo de norte a sul e de leste a oeste, cruzando-se em ângulos retos. As casas, construídas com tijolos cozidos de tamanho padronizado – uma inovação notável para a época –, eram frequentemente de dois ou mais andares e organizadas em torno de pátios internos. O mais impressionante, no entanto, era o sistema de saneamento. Quase todas as casas tinham seu próprio poço, uma área de banho e um banheiro conectado a um sistema de drenagem coberto que corria ao longo das ruas principais. Essas calhas de esgoto, cuidadosamente construídas e mantidas, levavam os dejetos para fora da cidade, um nível de higiene pública que não seria visto novamente no subcontinente por milênios.

Essa ordem e padronização se estendiam a muitos aspectos da vida. Ferramentas de cobre e pedra, cerâmicas e, mais notavelmente, os pesos e medidas, eram notavelmente uniformes em todo o Vale do Indo. Isso sugere um sistema de comércio e administração altamente regulado e centralizado, embora a natureza exata desse governo permaneça um enigma. Não há palácios, tumbas reais ou estátuas monumentais de governantes. A sociedade de Mohenjo Daro parece ter sido notavelmente igualitária, ou pelo menos, avessa à ostentação de poder e riqueza individual. A liderança pode ter sido exercida por um conselho de elites, comerciantes ou líderes religiosos, mas a evidência arqueológica é silenciosa.

Reconstituição artística do Grande Banho — a mais icônica estrutura de Mohenjo Daro, usada para rituais de purificação.

Os Enigmas do Monte dos Mortos

O silêncio mais profundo de Mohenjo Daro é, sem dúvida, sua escrita. Milhares de artefatos, principalmente pequenos selos de pedra com representações de animais como unicórnios, touros e elefantes, contêm sequências curtas de símbolos. Esta é a escrita do Indo, um dos poucos sistemas de escrita antigos que permanecem completamente indecifrados. As inscrições são muito curtas – em média, cinco símbolos – para permitir uma análise fácil, e a ausência de um texto bilíngue, como a Pedra de Roseta para os hieróglifos egípcios, torna a tarefa de decifração imensamente desafiadora. O que esses selos registram? Nomes de comerciantes? Clãs? Deuses? Sem a chave para sua linguagem, a voz do povo de Mohenjo Daro permanece perdida no tempo.

Outro mistério que deu à cidade seu nome assustador é o dos “esqueletos do massacre”. Durante as primeiras escavações, cerca de 44 esqueletos foram encontrados espalhados pelas ruas, em posições contorcidas, como se tivessem sido pegos de surpresa pela morte. Isso levou à teoria inicial de um massacre violento, talvez por invasores arianos, que teria posto um fim abrupto à cidade. No entanto, pesquisas posteriores, notadamente do arqueólogo George Dales na década de 1960, contestaram essa interpretação. Os esqueletos não foram encontrados em um único estrato arqueológico, mas em diferentes níveis, sugerindo que as mortes ocorreram ao longo de um período considerável. Além disso, muitos não apresentavam sinais de ferimentos violentos. A teoria mais aceita hoje é que esses indivíduos foram vítimas de doenças, como a cólera, ou de desastres naturais, e seus corpos simplesmente não receberam um enterro formal nos últimos dias caóticos da cidade.

O colapso final de Mohenjo Daro e de toda a Civilização do Vale do Indo, por volta de 1900 a.C., é talvez o maior de todos os enigmas. Não há sinais de uma destruição generalizada por guerra. Uma das teorias mais proeminentes aponta para mudanças climáticas e ambientais. A mudança do curso do rio Indo, ou de rios próximos como o Sarasvati, poderia ter devastado a agricultura local, que dependia das inundações anuais para fertilizar o solo. Evidências de múltiplas camadas de lodo indicam que a cidade sofreu inundações catastróficas. Essas mudanças ambientais, combinadas com a superexploração de recursos e a possível disseminação de doenças epidêmicas, podem ter levado a um colapso gradual do sistema econômico e social, forçando a população a abandonar as grandes cidades em favor de assentamentos rurais menores.

O Grande Banho

Especulação: Uma Explosão Atômica na Antiguidade?

É importante notar que, onde a ciência encontra seus limites, a especulação muitas vezes floresce. Uma das teorias mais sensacionalistas e controversas sobre o fim de Mohenjo Daro é a de uma explosão nuclear na antiguidade. Essa ideia, popularizada por autores como David Davenport em seu livro “Atomic Destruction in 2000 B.C.”, baseia-se em supostas evidências de vitrificação – tijolos e cerâmicas que teriam sido fundidos por um calor extremo, semelhante ao de uma explosão atômica. Os proponentes dessa teoria apontam para um suposto “epicentro” onde a destruição seria maior e para esqueletos que apresentariam níveis de radioatividade anormalmente altos. Frequentemente, citam passagens do épico indiano Mahabharata que descrevem uma “arma desconhecida” e uma “coluna incandescente de fumaça e fogo”, comparando-as aos efeitos de uma bomba nuclear.

Contudo, é crucial classificar essa teoria como pseudociência. A comunidade arqueológica e científica refuta veementemente essas alegações. A “vitrificação” observada em alguns artefatos pode ser explicada por processos de queima intensa em fornos de cerâmica, e não por uma explosão nuclear. As medições de radioatividade nunca foram confirmadas por estudos independentes e revisados por pares. As citações do Mahabharata são retiradas de contexto de um texto poético e religioso compilado séculos após o declínio de Mohenjo Daro. Não há qualquer evidência credível que sustente a ideia de uma guerra nuclear na pré-história. Essa teoria, embora fascinante para a imaginação, pertence ao campo da ficção e não da arqueologia.

O Legado Silencioso

Um selo de esteatita com a escrita indecifrada do Indo — o maior enigma deixado pela civilização de Mohenjo Daro.

Hoje, as ruínas de Mohenjo Daro enfrentam uma nova ameaça: a própria natureza. A erosão causada pelo sal, pela umidade e pelas variações de temperatura está desintegrando os tijolos que permaneceram intactos por mais de 4.000 anos. As recentes inundações devastadoras no Paquistão também representaram um grave perigo para o sítio. Esforços de conservação estão em andamento, mas a tarefa de preservar este tesouro da humanidade é monumental. Mohenjo Daro é um lembrete poderoso da engenhosidade e da complexidade das primeiras sociedades humanas, mas também de sua fragilidade. Ela nos mostra uma civilização que valorizava a ordem, a higiene e a comunidade, mas que, por razões que talvez nunca compreendamos completamente, simplesmente desapareceu.

Ao caminhar pelas ruas silenciosas desta metrópole fantasma, somos confrontados com o profundo mistério de seu povo. Eles nos deixaram uma cidade de tijolos, mas não sua história; seus símbolos, mas não suas palavras; seus corpos, mas não a causa de sua morte. Eles nos mostram que uma civilização pode alcançar grandes feitos de engenharia e organização social e, ainda assim, ser engolida pelo tempo, deixando para trás mais perguntas do que respostas. Diante de um legado tão profundo e enigmático, somos forçados a refletir sobre a natureza da própria civilização e sua permanência. Se uma sociedade tão organizada e avançada pôde desaparecer tão completamente, o que isso nos diz sobre a nossa?


Bibliografia Consultada

1.Wikipedia – Moenjodaro: https://pt.wikipedia.org/wiki/Moenjodaro

2.National Geographic – “The lost city of Mohenjo Daro”: https://www.nationalgeographic.com/history/article/mohenjo-daro

3.Ancient Origins – “Was the Mohenjo Daro ‘Massacre’ Real?”: https://www.ancient-origins.net/ancient-places-asia/mohenjo-daro-massacre-00819

4.Harappa.com – Mohenjo-daro Slideshow: https://www.harappa.com/slideshows/mohenjo-daro


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