A Vizinha que Morreu Duas Vezes: O Silêncio que Durou 42 Anos

Imagem 1: O apartamento no sótão, parado no tempo — a xícara de chá que nunca foi terminada.

Em um mundo hiperconectado, onde a vida de todos parece estar a um clique de distância, a história de Hedviga Golik soa como um conto de horror de uma era esquecida. Mas não é. É um espelho desconfortável, refletindo uma verdade que preferimos ignorar: a de que é possível desaparecer em plena vista, morrer em silêncio e ser esquecido por quase meio século, mesmo rodeado de pessoas. A história de Hedviga não é apenas sobre uma morte, mas sobre a morte da comunidade, da empatia e do simples ato de olhar para o lado e reconhecer a existência do outro.

Hedviga Golik nasceu em 1924, em uma Croácia que veria o mundo virar de cabeça para baixo múltiplas vezes ao longo de sua vida. Enfermeira de profissão, ela se estabeleceu em um modesto apartamento de 18 metros quadrados no sótão de um prédio em Zagreb. Sua casa, no entanto, era arquitetonicamente isolada dos outros andares, um prenúncio sombrio do isolamento que marcaria seus últimos dias. Descrita pelos poucos que com ela interagiam como uma mulher excêntrica, de humor instável, Hedviga era uma figura fantasmagórica em seu próprio prédio. Ora reclusa e silenciosa, ora explodindo em fúria por motivos triviais, ela mantinha uma distância segura de todos. Sua comunicação com o mundo exterior era mínima, resumindo-se a um balde que descia por uma corda com uma lista de compras para uma vizinha, Katica Carić, que nunca trocou uma palavra direta com ela. Hedviga tinha uma irmã, mas uma briga as afastou, cortando o último laço familiar que poderia ter sido sua salvação.

Em algum momento de 1966, Hedviga Golik preparou uma xícara de chá, sentou-se em frente à sua televisão e, simplesmente, morreu. E então, o silêncio. Um silêncio que se estendeu por 42 anos. Seus vizinhos, acostumados com suas longas ausências, presumiram que ela havia se mudado, talvez para se juntar a uma seita ou para viver com parentes distantes. Ninguém perguntou. Ninguém sentiu falta. Ninguém se importou. As contas de luz, em um detalhe macabro da automação moderna, continuaram a ser pagas em débito automático pelo arquiteto original do prédio, que também viria a falecer antes da chocante descoberta. O mundo continuou girando, a Iugoslávia se desfez em uma guerra sangrenta, e Hedviga permaneceu em seu túmulo particular, mumificada pelo tempo e pela indiferença.

Foi apenas em 2008, quando o prédio seria convertido em condomínios e a assinatura de todos os moradores era necessária, que a porta de Hedviga foi finalmente arrombada. A cena encontrada pela polícia era surreal: um esqueleto coberto por teias de aranha, deitado na cama, a xícara de chá ainda na mesa ao lado. O tempo havia parado naquele apartamento, enquanto lá fora, quatro décadas de história haviam se desenrolado. A autópsia não conseguiu determinar a causa exata da morte, apenas que ocorrera em uma estação fria, o que, junto com o isolamento do apartamento, permitiu a mumificação natural do corpo. Mas a verdadeira causa da morte de Hedviga, a que não consta em nenhum laudo, foi a solidão e a indiferença coletiva.

Imagem 2: A solidão que ninguém vê — cercada de vizinhos, mas completamente invisível.

O mais perturbador na história de Hedviga Golik não é o fato de ela ter morrido sozinha, mas a teia de omissões e justificativas que permitiu que seu corpo permanecesse ali por tanto tempo. Os vizinhos, em um dado momento, chegaram a suspeitar de sua morte, mas a ganância falou mais alto. A disputa sobre quem teria direito ao seu pequeno apartamento sobrepujou qualquer senso de humanidade. Um bilhete anônimo, falsamente atribuído à prefeitura, foi pregado na porta, declarando que o apartamento não poderia ser reclamado, e isso foi o suficiente para que todos se afastassem, deixando Hedviga em seu esquecimento. Eles não queriam violar um contrato de aluguel, mas não hesitaram em violar o mais básico dos contratos sociais: o de cuidar uns dos outros.

Este caso é um exemplo gritante do que os psicólogos sociais chamam de Efeito do Espectador (Bystander Effect). A teoria, popularizada após o infame assassinato de Kitty Genovese em Nova York, postula que a presença de outras pessoas inibe a nossa disposição para ajudar. A responsabilidade se difunde, cada um esperando que o outro tome a iniciativa. “Alguém deve ter visto”, “Alguém deve ter chamado a polícia”, “Não é problema meu”. No prédio de Hedviga, cada vizinho transferiu a responsabilidade para o próximo, em uma cadeia de inação que durou 42 anos. A pluralidade de pessoas, ao invés de aumentar a segurança, criou uma perigosa zona de conforto na omissão.

Mas a história de Hedviga vai além do Efeito do Espectador. Ela expõe uma ferida mais profunda: a apatia social que se alastra nas metrópoles modernas. Vivemos na era do paradoxo da conectividade. Estamos mais conectados do que nunca através das redes sociais, mas cada vez mais distantes das pessoas que habitam o mesmo espaço físico que nós. Conhecemos a vida íntima de celebridades do outro lado do mundo, mas ignoramos o nome do vizinho de porta. A cidade, que deveria ser um caldeirão de encontros e trocas, tornou-se um aglomerado de solidões. O isolamento arquitetônico do apartamento de Hedviga é uma metáfora perfeita para o isolamento emocional que muitos de nós construímos ao nosso redor.

A omissão dos vizinhos de Hedviga não foi apenas uma falha moral individual, mas um sintoma de uma doença social. A priorização do interesse material — o apartamento — sobre a vida humana é um reflexo de uma sociedade que valoriza mais o ter do que o ser. A desculpa de “não querer invadir a privacidade” é uma racionalização conveniente para a indiferença. Em uma comunidade saudável, a preocupação com o bem-estar do outro não é vista como invasão, mas como cuidado. A ausência de Hedviga não foi notada porque ela já era invisível em vida. Ela morreu socialmente muito antes de seu coração parar de bater.


Imagem 3: A invisibilidade social — cercado de pessoas, mas completamente só.

E as instituições? A polícia, que nunca a procurou porque ela nunca foi oficialmente dada como desaparecida, também tem sua parcela de culpa. A burocracia e a falta de proatividade transformaram uma pessoa em um número, um caso arquivado antes mesmo de ser aberto. A história de Hedviga Golik é um lembrete sombrio de que a ausência de um corpo presente não significa a ausência de um problema. A indiferença não é apenas um sentimento, é uma escolha com consequências letais.

Há ainda uma dimensão psicológica ainda mais sombria nessa história: a da morte simbólica que precede a morte física. Hedviga já havia sido apagada do mapa social muito antes de 1966. Sua excentricidade, seu comportamento errático, sua reclusão — tudo isso serviu como justificativa para que as pessoas ao seu redor construíssem uma distância emocional que, com o tempo, se tornou um abismo. Quando alguém é percebido como “diferente”, “difícil” ou “excêntrico”, a tendência humana é se afastar, criar barreiras e, eventualmente, agir como se aquela pessoa simplesmente não existisse. É um mecanismo de defesa que, em casos extremos, pode se tornar um veredicto de morte social.

Essa dinâmica não é exclusiva de Hedviga Golik. Ela se repete todos os dias, em apartamentos, escritórios e famílias ao redor do mundo. O colega de trabalho que ninguém convida para o almoço. O parente distante que só é lembrado em funerais. O vizinho cujo nome nunca foi aprendido. Cada um desses casos é uma versão menor, mas não menos real, do que aconteceu em Zagreb. A indiferença não começa com um ato grandioso de crueldade, mas com pequenas omissões cotidianas que se acumulam até se tornarem um muro intransponível.

Hedviga Golik morreu duas vezes: uma em seu apartamento, sozinha com seu chá, e outra na consciência de uma sociedade que a esqueceu. Sua história nos assombra porque sabemos, no fundo, que ela poderia acontecer em qualquer lugar, a qualquer um. Ela nos força a olhar para nossos próprios prédios, nossos próprios bairros, nossos próprios locais de trabalho e a nos perguntar: quem são as Hedvigas ao nosso redor? Quem são as pessoas que cruzam nosso caminho todos os dias, mas cuja ausência talvez nem notássemos?

Vivemos em uma cultura que celebra a independência e a autossuficiência, mas a que custo? A história de Hedviga Golik nos mostra o preço final do individualismo exacerbado. Ela nos lembra que somos seres sociais, que nossa sobrevivência e nosso bem-estar dependem dos laços que criamos uns com os outros. Ignorar essa verdade não é apenas um erro filosófico, é um perigo concreto. A história de Hedviga não é uma curiosidade macabra do passado. É um alerta para o presente.

O silêncio que envolveu a morte de Hedviga Golik por 42 anos é um grito de alerta. Um chamado para que quebremos as paredes de nossa indiferença, para que olhemos para o lado e vejamos as pessoas que compartilham o mundo conosco. Para que perguntemos, nos importemos, e, se necessário, ajamos. Para que nenhuma outra pessoa tenha que morrer duas vezes.

E você, quando foi a última vez que bateu na porta do seu vizinho apenas para saber se ele estava bem?


Bibliografia Consultada

  1. Death of Hedviga Golik – https://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_Hedviga_Golik
  2. The Woman Who Sat Dead for 35 Years While Her Neighbors Fought for Her Apartment – https://medium.com/write-a-catalyst/the-woman-who-sat-dead-for-35-years-while-her-neighbors-fought-for-her-apartment-4f3e9e7cc37d
  3. Bystander Effect In Psychology – https://www.simplypsychology.org/bystander-effect.html
  4. Isolamento social, apatia, tristeza, silêncio – https://psicologotadeumanfroni.com.br/isolamento-social-apatia-tristeza-silencio/
  5. A indiferença social é escolha, não falha moral – https://abcdoabc.com.br/a-indiferenca-social-e-escolha-nao-falha-moral/
  6. The Haunting Silence of Hedviga Golik: Forgotten for Decades – https://vocal.media/criminal/the-haunting-silence-of-hedviga-golik-forgotten-for-decades

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