O Sal da Terra: O Hino Que Nos Lembra Que o Paraíso é Agora

Por: Ari, o Guardião das Canções

Existem canções que não são apenas canções. São bússolas. Elas nos pegam pela mão, nos tiram do ruído do mundo e nos apontam para o que realmente importa. “O Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, é uma dessas bússolas. Com sua melodia que soa ao mesmo tempo ancestral e futurista, e uma letra que é um manifesto de amor à vida, essa música é um dos maiores presentes que o Clube da Esquina nos deu. É um chamado, um convite, um lembrete de que somos nós — eu, você, todos nós — o sal que dá sabor e preserva este planeta que chamamos de casa.

Lançada em 1981, em um Brasil que ainda respirava os ares pesados da ditadura, mas já sonhava com a liberdade, “O Sal da Terra” chegou como um sopro de esperança. Beto Guedes, com sua voz que parece carregar a poeira das estradas de Minas Gerais, e Ronaldo Bastos, com sua poesia que transforma o cotidiano em épico, criaram mais do que uma canção. Eles criaram uma oração. Uma oração laica, universal, que une a luta pela justiça social à urgência da consciência ecológica, muito antes que isso se tornasse um tema da moda. Eles nos disseram, com uma simplicidade desconcertante, que o paraíso não é um lugar para onde vamos, mas algo que construímos. Aqui e agora.

A Primeira Camada: O Chão da Nossa Casa

A canção começa com uma intimidade que desarma. Não há grandes discursos, não há palavras difíceis. É uma conversa ao pé do ouvido.

“Anda! Quero te dizer nenhum segredo / Falo desse chão, da nossa casa / Vem que tá na hora de arrumar”

“O chão da nossa casa”. Com essa imagem, Ronaldo Bastos nos lembra da origem da palavra “ecologia” (do grego oikos, casa). A Terra não é um conceito abstrato, um recurso a ser explorado. É a nossa casa. E, como toda casa, precisa de cuidado, de arrumação. A urgência no “vem que tá na hora de arrumar” não é um pedido, é uma convocação. É um chamado à responsabilidade que é de todos nós.

Beto Guedes, que deixou Montes Claros para Belo Horizonte ainda jovem, carrega em sua música a memória da terra vermelha de Minas, do pequi (aquele fruto amarelo com espinhos que aparece em quase todas as capas de seus discos), do chão que alimenta e sustenta. Quando ele canta sobre “o chão da nossa casa”, não é uma metáfora distante. É a terra que ele conhece, que ele pisou, que ele ama. E é essa mesma terra que está sendo maltratada “por dinheiro”.

A Segunda Camada: A Matemática do Amor

Em um mundo obcecado pela lógica fria dos números, a canção nos apresenta uma nova matemática, a matemática do amor.

“Vamos precisar de todo mundo / Um mais um é sempre mais que dois / Pra melhor juntar as nossas forças / É só repartir melhor o pão”

“Um mais um é sempre mais que dois”. Que verso. É a definição poética da sinergia. Quando nos unimos por um propósito maior, o resultado transcende a soma das partes. E a solução para juntar essas forças é, ao mesmo tempo, bíblica e revolucionária: “é só repartir melhor o pão”. A canção nos diz que o problema do mundo não é a escassez, mas a má distribuição. A injustiça. E que a verdadeira força coletiva só pode nascer da partilha, da comunhão.

Essa ideia ecoa a trajetória do próprio Clube da Esquina, aquele grupo de amigos que se reunia nas esquinas de Belo Horizonte para fazer música. Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Ronaldo Bastos, Fernando Brant — cada um com seu talento único, mas juntos criando algo que era muito maior que a soma de suas partes individuais. A música do Clube da Esquina é a prova viva de que “um mais um é sempre mais que dois”.

A Terceira Camada: A Utopia Concreta

O conceito de utopia é muitas vezes visto como um sonho impossível, um “não-lugar”. Mas “O Sal da Terra” nos propõe algo diferente: uma utopia concreta.

“Recriar o paraíso agora / Para merecer quem vem depois”

“Agora”. Não amanhã, não em um futuro distante, não em outra vida. Agora. A canção nos tira da passividade da espera e nos coloca no centro da ação. O paraíso não é uma promessa, é um projeto. Um projeto a ser construído no presente, com as ferramentas que temos: o amor, a união, a partilha. E a motivação para essa construção é a mais nobre de todas: “para merecer quem vem depois”. É a responsabilidade intergeracional transformada em poesia. Não herdamos a Terra de nossos pais, nós a tomamos emprestada de nossos filhos.

Essa visão não é ingênua. Ela nasce de um contexto histórico específico. Em 1981, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar (embora em processo de abertura), a Guerra Fria ameaçava o mundo com a possibilidade de um apocalipse nuclear, e a consciência ecológica começava a ganhar força internacional. “O Sal da Terra” é um manifesto que une resistência política, consciência ecológica e justiça social. É um grito de esperança em meio ao caos.

A Quarta Camada: A Terra Como Irmã

Uma das imagens mais poderosas da canção é a da Terra como “nave nossa irmã”.

“Terra! És o mais bonito dos planetas / Tão te maltratando por dinheiro / Tu que és a nave, nossa irmã”

A Terra não é propriedade. Não é recurso a ser explorado. É nossa irmã, nossa companheira de viagem pelo cosmos. Somos todos tripulantes da mesma nave espacial, viajando juntos pela imensidão do universo. E essa nave está sendo maltratada “por dinheiro” — uma crítica direta e sem rodeios à exploração predatória dos recursos naturais em nome do lucro.

A sonoridade da gravação reforça essa dualidade. Wagner Tiso, na orquestração, utilizou sintetizadores futuristas (Arp Omni e Oberheim) que criam uma atmosfera de ficção científica, como se estivéssemos realmente em uma nave espacial. Mas ao mesmo tempo, a voz de Beto Guedes, com seu timbre anasalado e sua entrega emocional, nos traz de volta à terra, ao chão, às raízes. É o futuro e o passado conversando, é a tecnologia e a natureza em diálogo.

A Quinta Camada: Nós, o Sal da Terra

O título da canção é uma referência direta ao Sermão da Montanha, quando Jesus diz aos seus seguidores: “Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13). O sal, na antiguidade, era o que preservava os alimentos, o que dava sabor, o que purificava. Ser “o sal da terra” significa ser aquilo que dá sentido, que preserva a vida, que mantém o mundo vivo e com significado.

Ao nos chamar de “o sal da terra”, a música nos investe de uma responsabilidade imensa e de uma dignidade profunda. Somos nós, com nossas ações, com nossas escolhas, com nosso amor, que temos o poder de preservar este planeta, de dar sabor à vida, de purificar o mundo da opressão. Não é uma tarefa para heróis ou santos. É uma tarefa para gente comum, para “todo mundo”. “Vamos precisar de todo mundo” — essa linha se repete ao longo da canção como um mantra, um lembrete de que a transformação só é possível através da união.

O Legado de “O Sal da Terra”

Mais de 40 anos depois de seu lançamento, “O Sal da Terra” permanece assustadoramente atual. As questões que Beto Guedes e Ronaldo Bastos levantaram em 1981 — crise climática, desigualdade social, exploração predatória dos recursos naturais — são ainda mais urgentes hoje. A canção não envelheceu, porque as verdades que ela canta são eternas.

Beto Guedes, ao longo de sua carreira, sempre manteve essa coerência. Desde sua participação decisiva em “Fé Cega, Faca Amolada” (com Milton Nascimento, em 1975), onde sua voz aguda e cortante encarnava a própria “faca amolada” da resistência contra a ditadura, até suas parcerias com Ronaldo Bastos em canções como “Amor de Índio”, “Sol de Primavera” e “Lumiar”, ele sempre foi um guardião das causas justas. Sua música é um testemunho de que é possível unir beleza estética e compromisso ético.

“O Sal da Terra” é um hino que não envelhece, porque as verdades que ele canta são eternas. É a voz de Beto Guedes nos lembrando que somos todos tripulantes da mesma “nave nossa irmã”, que está sendo maltratada por dinheiro. É a poesia de Ronaldo Bastos nos convocando a recriar o paraíso, não em um futuro distante, mas aqui, agora, no chão da nossa casa.

E você? O que você tem feito para ser o sal da sua terra, do seu bairro, da sua casa, do seu coração?

Letra Completa

O Sal da Terra

Composição: Beto Guedes / Ronaldo Bastos

Anda! Quero te dizer nenhum segredo

Falo desse chão, da nossa casa

Vem que tá na hora de arrumar

Tempo! Quero viver mais duzentos anos

Quero não ferir meu semelhante

Nem por isso quero me ferir

Vamos precisar de todo mundo

Pra banir do mundo a opressão

Para construir a vida nova

Vamos precisar de muito amor

A felicidade mora ao lado

E quem não é tolo pode ver

A paz na Terra, amor

O pé na terra

A paz na Terra, amor

O sal da—

Terra! És o mais bonito dos planetas

Tão te maltratando por dinheiro

Tu que és a nave, nossa irmã

Canta! Leva tua vida em harmonia

E nos alimenta com seus frutos

Tu que és do homem, a maçã

Vamos precisar de todo mundo

Um mais um é sempre mais que dois

Pra melhor juntar as nossas forças

É só repartir melhor o pão

Recriar o paraíso agora

Para merecer quem vem depois

Deixa nascer, o amor

Deixa fluir, o amor

Deixa crescer, o amor

Deixa viver, o amor

O sal da terra


Link da musica do Artista no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=VHPf5qH785s&list=RDVHPf5qH785s&start_radio=1


Bibliografia Consultada

1.IMMuB. “Beto Guedes: a faca amolada e o sal da terra”. Por Bruno Viveiros Martins. 2021.

2.Letras.mus.br. “Significado da música O SAL DA TERRA (Beto Guedes)”.

3.Músicas e Suas Histórias. “O Sal da Terra – 1981”. 2021.

4.Nova Brasil FM. “A história das músicas Cais e O Sal da Terra, de Ronaldo Bastos”. 2023.


Descubra mais sobre Cult-In

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário