O Grande Arquiteto do Universo: Um Mosaico de Visões Maçônicas ao Redor do Mundo

Introdução: O Nome que Une o Inominável

Existe uma expressão que, pronunciada em qualquer Templo maçônico do mundo, é imediatamente compreendida por todos os Irmãos, independentemente de sua língua, cultura ou crença: G.A.D.U. — Grande Arquiteto do Universo. Quatro letras que carregam o peso de milênios de busca humana pelo transcendente, pela origem, pelo sentido último da existência.

Mas o que é, afinal, o G.A.D.U.? É Deus? É uma metáfora? É um princípio filosófico? É a consciência cósmica? É a razão humana elevada ao seu mais alto grau? A resposta, fascinante e desconcertante ao mesmo tempo, é: depende de quem você pergunta. E é exatamente essa abertura, essa recusa em definir o indizível com palavras que o limitariam, que faz do G.A.D.U. um dos conceitos mais geniais e duradouros da história do pensamento humano.

Este estudo propõe uma viagem ao redor do mundo — e ao longo do tempo — para explorar como diferentes culturas, tradições religiosas e correntes maçônicas enxergam, nomeiam e se relacionam com esse Princípio Supremo. Não é uma viagem em busca de uma resposta definitiva. É uma viagem em busca de mais perguntas, mais perspectivas, mais Luz.

Parte I: Antes da Maçonaria — O Arquiteto nas Tradições Antigas

O Fogo Primordial e o Divino Ancestral

Antes de falarmos de Lojas, Rituais e Constituições, precisamos ir mais fundo — muito mais fundo. Há aproximadamente três milhões de anos, nas planícies do Serengeti, na atual Tanzânia, os primeiros hominídeos já realizavam algo que podemos chamar de experiência religiosa. Reunidos ao redor do fogo, contemplavam as chamas como manifestação de um poder superior, incompreensível e protetor. O xamã que produzia o fogo com duas pedras era, naquele contexto, o primeiro “Mestre de Loja” da história humana — aquele que mediava entre o humano e o divino.

Essa cena ancestral já continha os elementos essenciais que encontraríamos, milhões de anos depois, em qualquer Templo maçônico: a reunião fraterna, a iniciação dos jovens, os sinais de reconhecimento, a conduta moral exigida, e a busca pela Luz como manifestação do divino. O G.A.D.U., nesse sentido, não foi inventado pela Maçonaria. Ele foi redescoberto por ela.

O Egito: O Laboratório do Divino

O Egito Antigo foi o grande laboratório onde os conceitos que alimentariam a Maçonaria foram desenvolvidos e sistematizados ao longo de milênios. Os Mistérios de Ísis e Osíris, os ritos de iniciação nos templos, a geometria sagrada dos construtores das pirâmides, a busca pela Ma’at (a ordem cósmica, a verdade, a justiça) — tudo isso constitui o substrato cultural sobre o qual a Maçonaria moderna foi construída.

Para os egípcios, o divino era Netjer (o Princípio Divino), manifestado em múltiplas formas mas fundamentalmente uno. Rá era o Sol, a Luz suprema que dissipa as trevas. Ptah era o Criador-Artesão, o deus dos construtores, que criou o mundo através da palavra e do pensamento — uma metáfora perfeita para o G.A.D.U. como “Arquiteto”. Thoth era a Sabedoria, o conhecimento, a geometria sagrada. Todos eram faces de um mesmo Princípio Criador que os maçons modernos chamariam de G.A.D.U.

O sábio egípcio Amenopop, citado pelo egiptólogo alemão Morenz, expressou isso de forma que ressoa profundamente com a filosofia maçônica: “O Homem é argila e palha. Deus é o chefe da Obra. Ele constrói e destrói todos os dias.” O Criador como Construtor. O G.A.D.U. como o Grande Mestre de Obras do Cosmos.

A Grécia: O Demiurgo e o Arquiteto Platônico

Platão, no diálogo Timeu, apresenta o conceito do Demiurgo — literalmente, o “artesão do povo”, o criador do mundo material. O Demiurgo não cria o universo do nada, mas o ordena, impondo forma e harmonia ao caos primordial, guiando-se pelo modelo das Formas eternas e perfeitas. Ele é, essencialmente, um Arquiteto: não o criador dos materiais, mas o ordenador, o que impõe o plano.

Esta visão platônica influenciou profundamente tanto o Neoplatonismo quanto a Gnose, e através deles, chegou à Maçonaria. A ideia de que o universo é uma obra arquitetônica, construída segundo princípios geométricos e harmônicos, é central para a filosofia maçônica. O G.A.D.U. é, nesse sentido, o Demiurgo platônico: não necessariamente o Deus pessoal das religiões reveladas, mas o Princípio Ordenador que transforma o caos em cosmos.

Kepler, Calvino e o Arquiteto Renascentista

A expressão “Grande Arquiteto do Universo” ganhou força muito antes das Constituições de Anderson. João Calvino, em sua obra L’Institution de la Religion Chrétienne (1536), chama a Deus repetidamente de “Grande Arquiteto” ou “Arquiteto do Universo”, argumentando que a natureza é a imagem visível de Deus invisível — e que, portanto, não há necessidade de imagens religiosas, pois a própria criação prova a existência do Criador.

O astrônomo Johannes Kepler, em seu Mysterium Cosmographicum (1596), afirmou que o universo é uma imagem de Deus, onde o Sol corresponde ao Pai, a Esfera Estelar ao Filho e o Espaço entre os corpos celestes ao Espírito Santo. Para Kepler, Deus era literalmente um Arquiteto Geométrico, que havia projetado o universo segundo princípios matemáticos precisos.

O arquiteto francês Philibert de L’Orme (1567), em seu Tratado Completo da Arte de Construir, foi ainda mais direto: “Só Deus é o Grande Arquiteto do Universo, enquanto Senhor da Criação.” O homem constrói, mas apenas Deus é o Arquiteto supremo.

Parte II: As Constituições de Anderson e a Universalização do G.A.D.U.

Em 1723, o pastor presbiteriano James Anderson publicou as famosas Constituições, o documento fundador da Maçonaria moderna. Nelas, estabeleceu que um maçom é obrigado a seguir “aquela religião sobre a qual todos os homens concordam” — uma formulação deliberadamente vaga, que permitia a inclusão de cristãos de diferentes denominações, mas que, com o tempo, seria interpretada de forma cada vez mais ampla.

A expressão G.A.D.U. aparece apenas uma vez no preâmbulo das Constituições, o que sugere que a universalização do conceito foi gradual, não imediata. Até 1717, a Maçonaria britânica era essencialmente cristã. A transição para um conceito mais universal de divindade foi um processo que durou décadas, impulsionado pela expansão da Maçonaria para países com tradições religiosas diversas.

A genialidade do conceito de G.A.D.U. está em sua abertura estrutural: ele é um nome para o inominável, uma forma de falar sobre o transcendente sem aprisioná-lo em um dogma específico. É, ao mesmo tempo, suficientemente específico para excluir o ateísmo (a crença num Ser Supremo é exigida) e suficientemente vago para incluir praticamente todas as tradições religiosas do mundo.

Parte III: O G.A.D.U. nas Tradições Abraâmicas

O Judaísmo: YHWH e o Templo de Salomão

Para um maçom judeu, o G.A.D.U. é Javé (YHWH), o Deus do Antigo Testamento, o Criador do céu e da terra, o Deus que fez aliança com Abraão, Isaque e Jacó, que libertou os israelitas do Egito e que ordenou a construção do Templo de Salomão. A simbologia maçônica, centrada no Templo de Salomão, tem raízes profundamente judaicas, e para um maçom judeu, cada símbolo, cada ritual, cada referência ao Templo ressoa com uma profundidade que vai muito além do alegórico.

O Livro da Lei Sagrada, para um maçom judeu, é o Tanakh (o conjunto de textos que os cristãos chamam de Antigo Testamento). O Tetragrama (YHWH), o Nome Inefável de Deus, está no coração da tradição cabalística que influenciou profundamente a Maçonaria, especialmente nos graus do Real Arco e nos Altos Graus do REAA.

A Cabala, a tradição mística judaica, oferece uma das visões mais ricas e complexas do G.A.D.U. Para os cabalistas, Deus em sua essência mais profunda é Ein Sof — o “Sem Fim”, o Absoluto que transcende qualquer descrição ou atributo. O Ein Sof se manifesta no universo através de dez Sefirot (emanações divinas), que formam a Árvore da Vida — um mapa do cosmos e da alma humana que é central para o estudo dos Altos Graus maçônicos.

O Cristianismo: O Deus Trino e o Arquiteto da Igreja

Para a grande maioria dos maçons ao longo da história, especialmente nas tradições britânica e americana, o G.A.D.U. é o Deus cristão: Pai, Filho e Espírito Santo. O próprio Anderson, ao escrever as Constituições, tinha em mente um Deus essencialmente cristão, embora buscasse uma formulação que transcendesse as divisões entre católicos e protestantes.

A Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, é o Livro da Lei Sagrada por excelência na tradição maçônica anglófona. As histórias de Salomão, Hiram Abiff, Moisés, Enoque e outros personagens bíblicos são o substrato narrativo sobre o qual os rituais maçônicos foram construídos.

É importante notar que a relação entre a Maçonaria e a Igreja Católica foi historicamente tensa. A Igreja condenou a Maçonaria em 1738 (bula In Eminenti de Clemente XII) e reafirmou essa condenação várias vezes ao longo dos séculos. Para a Igreja, a Maçonaria representa um sistema de crença alternativo, incompatível com a fé católica. No entanto, muitos maçons católicos ao longo da história — especialmente em países latinos como Brasil, França e Itália — não viram contradição entre sua fé e sua prática maçônica.

O Islamismo: Alá e a Tensão com a Modernidade

Para um maçom muçulmano, o G.A.D.U. é Alá — o Deus único, onipotente e misericordioso do Islã, o mesmo Deus de Abraão, Moisés e Jesus, mas revelado em sua forma mais completa e definitiva através do profeta Maomé e do Corão. Os princípios de fraternidade, caridade e busca pela verdade são plenamente compatíveis com os ensinamentos islâmicos, e muitos muçulmanos ilustres foram maçons ao longo da história.

A Maçonaria floresceu no mundo islâmico durante o século XIX e início do século XX, especialmente no Egito, Turquia, Líbano e Síria, onde era vista como um veículo de modernização, educação e fraternidade inter-religiosa. Figuras como o Khedive Ismail do Egito e vários intelectuais árabes foram maçons declarados.

No entanto, a ascensão do fundamentalismo islâmico no século XX transformou essa relação. Em 1978, o Colégio Jurisdicional Islâmico emitiu uma fatwa declarando a Maçonaria incompatível com o Islã, e hoje a Maçonaria é proibida ou fortemente desestimulada na maioria dos países de maioria muçulmana.

O paradoxo profundo está na semelhança estrutural entre a Maçonaria e o Sufismo, a corrente mística do Islã. Ambos são caminhos iniciáticos, com hierarquias espirituais, rituais de transformação interior, linguagem simbólica e uma busca pela união com o divino. Para um maçom de tradição sufi, o G.A.D.U. é Alá em sua manifestação mais esotérica — o Amado a quem o místico busca se unir através do dhikr (lembrança de Deus) e da purificação interior.

Parte IV: O G.A.D.U. nas Tradições Orientais

O Hinduísmo: Brahman e a Trindade Cósmica

O Hinduísmo apresenta um dos conceitos mais ricos e complexos de divindade que a humanidade já desenvolveu. Para um maçom hindu, o G.A.D.U. é Brahman — o Absoluto, a realidade última e impessoal que está por trás de todos os deuses, de todos os seres, de toda a existência. Brahman não é um deus pessoal, mas o fundamento ontológico de tudo que existe.

Brahman se manifesta no universo através da Trimurti (a Trindade Hindu): Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor/Transformador). Esta tríade cósmica ressoa profundamente com a simbologia maçônica da criação, preservação e renovação — os três estágios da Grande Obra tanto alquímica quanto iniciática.

Um ditado hindu que circulava entre os maçons da Índia colonial captura perfeitamente a conexão: “A Trindade de Deus, o Mestre e a Palavra se tornam um; todos os que são iniciados na Palavra tornam-se Filhos de Deus.” A iniciação como nascimento espiritual, a Palavra como veículo do divino — conceitos que ressoam em qualquer Loja maçônica do mundo.

O Sikhismo: Waheguru e a Democracia Espiritual

O Sikhismo, fundado por Guru Nanak no século XV, é um monoteísmo rigoroso que rejeita o sistema de castas e afirma a igualdade de todos os seres humanos diante de Deus. Para um maçom sikh, o G.A.D.U. é Waheguru — o “Maravilhoso Senhor”, o Deus único, sem forma, sem início e sem fim.

A igualdade fraterna, a rejeição das distinções de classe e a busca pela união com o divino através da meditação e do serviço ao próximo fazem do Sikhismo uma tradição com profundas afinidades com os valores maçônicos. O Livro da Lei Sagrada para um maçom sikh é o Guru Granth Sahib, o texto sagrado que é tratado como um Guru vivo.

O Zoroastrismo: Ahura Mazda e a Luta Cósmica

O Zoroastrismo, uma das religiões mais antigas do mundo, apresenta uma visão dualista do cosmos: a luta eterna entre Ahura Mazda (o Senhor da Sabedoria, o princípio do bem, da luz e da verdade) e Ahriman (o princípio do mal, das trevas e da mentira). Para um maçom parsi (como são chamados os zoroastrianos da Índia), o G.A.D.U. é Ahura Mazda, o Criador benevolente que espera que os seres humanos escolham o bem e contribuam para a vitória final da Luz sobre as Trevas.

Esta visão ressoa profundamente com a simbologia maçônica da Luz que dissipa as Trevas, da busca pela Luz como objetivo central da jornada iniciática.

O Budismo: O Dharma e o Desafio do Ateísmo

O Budismo representa o maior desafio conceitual para a Maçonaria Regular. Em sua forma mais pura, o Budismo não é teísta — não há um Deus criador pessoal, e o Buda histórico (Siddharta Gautama) era um ser humano que alcançou a iluminação, não uma divindade.

Como, então, um budista pode acreditar no G.A.D.U.? A resposta está na interpretação. Muitos maçons budistas identificam o G.A.D.U. com o Dharma — a lei cósmica e moral que governa o universo, a verdade última que o Buda descobriu e ensinou. Outros o identificam com a Buda-Natureza — a potencialidade de iluminação presente em todos os seres, o princípio de consciência que permeia o cosmos.

Há também a tradição do Budismo Tibetano, que é muito mais teísta, com uma rica cosmologia de Budas e Bodhisattvas que funcionam de forma análoga às divindades de outras tradições. Para um maçom budista tibetano, o G.A.D.U. poderia ser identificado com Samantabhadra (o Buda Primordial) ou com o conceito de Dharmakaya (o Corpo do Dharma, a dimensão absoluta da realidade).

Parte V: O G.A.D.U. na África — Do Ancestral ao Libertador

As Tradições Religiosas Africanas

As religiões tradicionais africanas, em sua imensa diversidade, compartilham geralmente a crença em um Deus criador supremo, distante e transcendente, com uma série de divindades menores e espíritos ancestrais que atuam como intermediários entre o humano e o divino.

Para um maçom de tradição Yoruba (a tradição religiosa mais influente da África Ocidental, que deu origem ao Candomblé, à Umbanda e ao Vodou), o G.A.D.U. seria Olodumare — o criador supremo, onipotente e onisciente, que criou o universo e delegou sua administração aos Orixás (divindades que personificam forças da natureza e aspectos da experiência humana). A Maçonaria, com sua estrutura hierárquica e seus rituais de transformação, ressoa com a estrutura das sociedades iniciáticas africanas, como a Ogboni (dos Yoruba) e a Poro (da África Ocidental), frequentemente chamadas de “Maçonaria africana”.

A Maçonaria Prince Hall: O G.A.D.U. Libertador

A Maçonaria Prince Hall tem uma história única e poderosa. Prince Hall (1735-1807), nascido em Barbados de pai inglês e mãe africana, foi iniciado na Maçonaria em 1775 por uma Loja militar britânica em Boston. Diante da recusa das Grandes Lojas americanas em aceitar maçons negros, ele fundou a African Grand Lodge of North America em 1791, a primeira Grande Loja africana das Américas.

Para os maçons Prince Hall, o G.A.D.U. tem uma dimensão libertadora que vai além da filosofia: ele é o Deus do Êxodo, que ouviu o clamor dos oprimidos e os libertou da escravidão. A narrativa bíblica da libertação dos israelitas do Egito tornou-se uma poderosa metáfora para a luta do povo negro contra a escravidão e a opressão racial. O G.A.D.U. não é apenas o Arquiteto do cosmos, mas o Arquiteto da Justiça, o Construtor de uma sociedade mais livre e igualitária.

Parte VI: A Grande Ruptura — A Maçonaria Sem G.A.D.U.

O Grande Oriente da França e a Decisão de 1877

Em 13 de setembro de 1877, numa sessão histórica do Convento do Grande Oriente da França (GOdF), o pastor protestante Frédéric Desmons apresentou uma proposta que sacudiria o mundo maçônico: remover da Constituição a exigência de crença em Deus e na imortalidade da alma. A proposta foi aprovada por ampla maioria.

Esta decisão não foi um capricho, mas o resultado de uma profunda transformação intelectual que varria a França do século XIX. O Positivismo de Auguste Comte, que propunha substituir a religião pela ciência como fundamento da sociedade, havia penetrado profundamente nas classes intelectuais francesas, que constituíam a maioria dos maçons do GOdF. Para esses homens, a exigência de crença no G.A.D.U. era um resquício de superstição religiosa incompatível com o espírito científico e racional da modernidade.

O GOdF não apenas removeu o G.A.D.U. de sua Constituição, mas reformou seus rituais para eliminar todas as referências ao transcendente, substituindo-as por conceitos laicos como Humanidade, Razão e Progresso. A Maçonaria tornava-se, assim, uma escola filosófica e moral puramente secular.

A Maçonaria Liberal e Suas Variantes

A decisão do GOdF criou um cisma que perdura até hoje. A Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) e a maioria das obediências anglo-saxãs romperam relações com o GOdF, considerando que a remoção do G.A.D.U. violava os Landmarks fundamentais da Maçonaria.

Surgiram, assim, duas grandes famílias maçônicas:

A Maçonaria Regular, que segue o modelo da UGLE, exige a crença num Ser Supremo (o G.A.D.U.), usa o Livro da Lei Sagrada nos rituais, proíbe discussões políticas e religiosas nas Lojas, e admite apenas homens. Esta é a tradição da maioria das Grandes Lojas do mundo, incluindo o Brasil.

A Maçonaria Liberal (ou Adogmática ou Continental), que segue o modelo do GOdF, não exige crença religiosa, admite ateus e agnósticos, frequentemente admite mulheres (como no Droit Humain, que é misto), e vê a Maçonaria como uma escola filosófica e social comprometida com o progresso humano.

Para a Maçonaria Liberal, o G.A.D.U. é substituído pelo conceito de Princípio Criador (para aqueles que ainda mantêm alguma referência ao transcendente) ou simplesmente omitido. A busca pela Luz não é uma busca por uma verdade transcendente, mas pelo aperfeiçoamento humano através da razão, da ciência e da ação social.

Parte VII: Perspectivas Filosóficas e Esotéricas

O G.A.D.U. Hermético: O Deus Interior

Na tradição hermética, que influenciou profundamente a Maçonaria especialmente através da Rosacruz, o G.A.D.U. tem uma dimensão interior que vai além das religiões externas. A máxima hermética “O que está em cima é como o que está embaixo” (da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto) sugere que o macrocosmo (o universo) e o microcosmo (o ser humano) são espelhos um do outro. Deus não está apenas fora, mas dentro de cada ser humano.

Para Manly P. Hall, um dos mais influentes escritores maçônicos do século XX, o G.A.D.U. hermético é a Consciência Universal, o princípio de inteligência que permeia todo o cosmos e que cada ser humano pode acessar através do desenvolvimento espiritual e intelectual. A iniciação maçônica, nessa perspectiva, é um processo de despertar para essa Consciência Universal que já existe dentro de cada um.

O G.A.D.U. Gnóstico: O Demiurgo e o Deus Oculto

A tradição gnóstica apresenta uma visão mais complexa e perturbadora. Para os gnósticos, o mundo material foi criado não pelo Deus supremo e perfeito, mas pelo Demiurgo — um ser inferior, às vezes ignorante, às vezes malévolo, que criou um mundo imperfeito. O verdadeiro Deus, o Deus Oculto (Deus Absconditus), está além do Demiurgo, além do cosmos material, inacessível exceto através do conhecimento (gnosis) que permite ao ser humano transcender o mundo material e retornar à sua origem divina.

Esta visão gnóstica ressoa com certas correntes da Maçonaria esotérica, especialmente nos Altos Graus, onde a busca pela Palavra Perdida pode ser interpretada como a busca pelo conhecimento do verdadeiro Deus, oculto por trás das aparências do mundo material.

Albert Pike e a Síntese Esotérica

Albert Pike, o grande sistematizador do Rito Escocês Antigo e Aceito no século XIX, apresentou em seu monumental Morals and Dogma (1871) uma visão do G.A.D.U. que sintetiza múltiplas tradições: a Cabala judaica, o Hermetismo, o Neoplatonismo, o Gnosticismo e as religiões orientais. Para Pike, o G.A.D.U. é o Princípio Absoluto, a fonte de toda existência, que transcende qualquer nome, qualquer atributo, qualquer conceito humano. Todas as religiões são aproximações imperfeitas deste Absoluto, e a Maçonaria, ao reunir homens de todas as fés, oferece um espaço onde essas aproximações podem se encontrar e se enriquecer mutuamente.

Parte VIII: O G.A.D.U. no Brasil — Uma Síntese Tropical

O Brasil oferece um caso particularmente interessante para o estudo do G.A.D.U., dada a extraordinária diversidade religiosa do país. A Maçonaria brasileira, que seguiu historicamente o modelo do Grande Oriente do Brasil (GOB) e do Grande Oriente do Brasil (GOB), conviveu com maçons católicos, protestantes, espíritas, umbandistas, judeus e de outras tradições.

Para os maçons brasileiros de tradição espírita (kardecista), o G.A.D.U. é o Deus do Espiritismo: um Deus impessoal, infinito e justo, que governa o universo através de leis imutáveis, e que permite aos espíritos evoluírem através de múltiplas encarnações em direção à perfeição. Esta visão tem profundas afinidades com o conceito maçônico de aperfeiçoamento gradual, de polimento da Pedra Bruta ao longo de várias vidas.

Para os maçons de tradição afro-brasileira (Candomblé, Umbanda), o G.A.D.U. pode ser identificado com Olorum (o Deus supremo do Candomblé, equivalente ao Olodumare Yoruba) ou com o conceito de uma força divina que se manifesta através dos Orixás. A riqueza simbólica das tradições afro-brasileiras ressoa com a riqueza simbólica da Maçonaria de formas que ainda estão sendo exploradas.

Conclusão: O Espelho do Infinito

Ao final desta viagem ao redor do mundo e ao longo do tempo, o que podemos concluir sobre o G.A.D.U.?

Talvez a conclusão mais profunda seja esta: o G.A.D.U. é um espelho. Cada cultura, cada tradição, cada ser humano projeta nele sua mais alta concepção do divino, do sagrado, do princípio ordenador do cosmos. Ele é Javé para o maçom judeu, Alá para o maçom muçulmano, o Pai para o maçom cristão, Brahman para o maçom hindu, o Dharma para o maçom budista, Olodumare para o maçom yoruba, a Razão para o maçom positivista.

E talvez seja exatamente isso que o torna tão poderoso e tão duradouro. Ao recusar-se a definir o indizível, ao deixar aberta a questão do que ou quem é o G.A.D.U., a Maçonaria criou um espaço único no mundo: um lugar onde homens de todas as fés podem se reunir em fraternidade, cada um trazendo sua própria visão do divino, e todos juntos construindo algo maior do que qualquer um poderia construir sozinho.

A verdadeira universalidade da Maçonaria não reside em uma crença uniforme, mas na capacidade de transformar a diversidade de visões em uma harmonia construtiva, onde cada pedra, com sua cor e textura únicas, contribui para a beleza e a solidez do Templo. O G.A.D.U. não é a resposta. É a pergunta que nos mantém em busca.

E talvez seja essa a maior Luz que a Maçonaria tem a oferecer ao mundo.


Tabela Comparativa: O G.A.D.U. nas Diferentes Tradições

TradiçãoNome do G.A.D.U.Livro da LeiConceito Central
JudaísmoJavé (YHWH) / Ein SofTanakhDeus da Aliança; Absoluto Cabalístico
CristianismoDeus (Pai, Filho, Espírito Santo)BíbliaDeus pessoal e trino
IslamismoAláCorãoDeus único, onipotente e misericordioso
SufismoO Amado / Al-HaqqCorão + Poesia MísticaDeus como Amado a quem o místico busca
HinduísmoBrahman / TrimurtiBhagavad Gita / VedasAbsoluto impessoal + Trindade Cósmica
SikhismoWaheguruGuru Granth SahibDeus único, sem forma, sem início
ZoroastrismoAhura MazdaAvestaSenhor da Sabedoria; princípio do Bem
BudismoDharma / Buda-NaturezaTripitakaLei Cósmica; potencial de iluminação
Tradições AfricanasOlodumare / NyameTradição OralCriador supremo; manifestado nos Orixás
HermetismoO Absoluto / Consciência UniversalCorpus HermeticumDeus interior; macrocosmo = microcosmo
GnosticismoDeus Oculto (Deus Absconditus)Textos GnósticosDeus além do Demiurgo; acessível pela Gnose
DeísmoO Relojoeiro CósmicoO Livro da NaturezaDeus criador que não intervém
Maçonaria LiberalPrincípio Criador / Razão / HumanidadeNenhum (ou qualquer)Escola filosófica sem dogma religioso

Referências Bibliográficas

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