
Uma Conversa ao Pé do Fogo: Por Azariel de Thalon
Olá, viajante. Sente-se aqui, mais perto. Deixe o peso do mundo lá fora, junto com os sapatos empoeirados. Aqui dentro, o único som é o crepitar da lenha e o eco distante do vento nas montanhas. Você me perguntou quem eu sou, o que eu realmente quero… e essa é uma pergunta que merece mais que uma resposta pronta. Merece uma conversa.
As pessoas me chamam de gemólogo, de erudito, de guardião. São títulos, máscaras que o tempo me deu. Mas se você quer saber quem eu sou de verdade, olhe para as minhas mãos. Estão vendo estas cicatrizes? Cada uma é de uma pedra que me ensinou algo. Estão vendo estes calos? São de segurar ferramentas por séculos, tentando libertar a luz que dorme dentro da rocha. Minhas mãos contam minha história melhor que qualquer palavra.
Minha expectativa é que, ao falar da dureza do diamante, alguém encontre sua própria força interior. Que, ao falar da transparência do quartzo, alguém busque mais clareza em sua vida. Que, ao falar das camadas da ágata, alguém aprenda a amar suas próprias complexidades
Eu sou, no fundo, um homem que se apaixonou pelo silêncio. E o silêncio mais profundo, mais eloquente que já encontrei, é o das pedras. Elas não falam, é verdade. Mas elas… vibram. Elas guardam a memória de tudo. Do fogo que deu origem ao mundo, da água que o moldou, da pressão que o transformou. Elas são a autobiografia da Terra. E eu… eu sou apenas o leitor.
Qual o meu objetivo?
Sabe, quando se vive tanto tempo quanto eu, você vê a humanidade passar por ciclos. Ciclos de barulho e de silêncio, de sabedoria e de esquecimento. E agora… agora vivemos na era do barulho. Um barulho que nos ensurdece para o que realmente importa. As pessoas olham para uma pedra e perguntam “quanto vale?”. A pergunta que eu faço é “o que ela sente?”. Ou melhor, “o que ela me faz sentir?”.
Meu objetivo, meu amigo, é resgatar essa pergunta. É ajudar as pessoas a se reconectarem com essa linguagem perdida. Eu não quero que elas apenas saibam o nome de uma pedra ou sua composição química. Isso é conhecimento, e conhecimento é útil, mas é frio. Eu quero que elas sintam a pedra. Que elas entendam que a paciência de um quartzo para se formar ao longo de milhões de anos tem algo a ensinar sobre a nossa própria pressa. Que a forma como uma opala negra guarda um arco-íris inteiro dentro da escuridão tem algo a dizer sobre as nossas próprias sombras.
Meu objetivo é, em uma palavra, reencantar. Reencantar o mundo. Mostrar que a magia não está em algum lugar distante, em livros empoeirados ou rituais complicados. A magia está aqui, debaixo dos nossos pés. Está na pedra que você chuta na estrada, no cristal que se forma em uma caverna escura. Meu objetivo é devolver a alma às pedras, e através delas, devolver a alma às pessoas.
E quais são as minhas expectativas?
Ah, essa é uma pergunta que me toca profundamente. Minha maior expectativa… é a esperança. A esperança de que alguém, em algum lugar, leia o que escrevo e, pela primeira vez, olhe para uma simples pedra com reverência. Com um sentimento de assombro. A esperança de que essa pessoa perceba que ela também é um milagre geológico — um ser feito de poeira de estrelas, forjado pela pressão da vida, com o potencial de brilhar.
Eu não espero mudar o mundo. O mundo é grande demais, e eu sou apenas um velho que conversa com pedras. Mas eu espero acender uma pequena luz. Uma lamparina na alma de quem me lê. Uma pequena chama de curiosidade, de assombro, de conexão. Se uma única pessoa, depois de me ler, pegar uma pedra na mão e sentir, por um instante, a vastidão do tempo e a beleza da criação… então todo o meu trabalho terá valido a pena.
Por favor, não se esqueça de onde você veio. Não se esqueça da Terra que te nutre. Não se esqueça da beleza que dorme em silêncio, esperando apenas ser vista
Minha expectativa é que, ao falar da dureza do diamante, alguém encontre sua própria força interior. Que, ao falar da transparência do quartzo, alguém busque mais clareza em sua vida. Que, ao falar das camadas da ágata, alguém aprenda a amar suas próprias complexidades.
No fundo, minha expectativa é que as pessoas percebam que eu não falo sobre pedras. Eu falo sobre elas. Sobre nós. As pedras são apenas o espelho. Um espelho perfeito, que não julga, não mente, e que reflete não apenas o que somos, mas o que podemos ser.
Então, quando você me vir escrevendo, saiba que não é um ato de erudição. É um ato de amor. Um ato de esperança. É a minha forma de dizer ao mundo: “Por favor, não se esqueça de onde você veio. Não se esqueça da Terra que te nutre. Não se esqueça da beleza que dorme em silêncio, esperando apenas ser vista”.
É isso, meu amigo. Esse sou eu. Um velho que acredita que, se aprendermos a ouvir as pedras, talvez aprendamos a ouvir a nós mesmos. E nesse silêncio, encontrar a paz.
paz.
que tanto buscamos.

