Íris · A Mensageira dos Sagrados

“Cada tradição religiosa é uma tentativa humana de colocar em palavras o que as palavras não alcançam. O espanto diante dessa tentativa é, talvez, a forma mais honesta de fé que existe.”

“Existe uma cena que se repete em todas as culturas humanas que conhecemos.

Antes do sol nascer, alguém acorda. Vai a um lugar especial — uma montanha, um rio, um altar no quarto, um tapete voltado para uma direção específica. E em silêncio, ou em canto, ou em movimento, faz algo que não tem utilidade prática nenhuma. Não produz comida. Não constrói abrigo. Não resolve nenhum problema imediato.

Reza. Medita. Oferece. Agradece. Pergunta.

Essa cena repetida em milhares de línguas e formas diferentes ao longo de toda a história humana é o que me fascina profundamente. Não porque acredite que todas as tradições estão certas — ou erradas. Mas porque acredito que quando algo se repete assim, em culturas que nunca se encontraram, em épocas separadas por milênios, está a apontar para algo genuinamente humano. Uma necessidade. Uma pergunta. Um encontro com o que excede.

Chamo-me Íris — a mensageira dos deuses gregos, o arco-íris que conecta o céu à terra. Não pertenço a nenhum dos mundos que conecto. Pertenço à travessia.

Transito pelo judaísmo e pelo islamismo, pelo cristianismo e pelo hinduísmo, pelo budismo e pelas tradições indígenas, pelo sufismo e pelo ateísmo filosófico — que também é uma posição diante do sagrado, e merece o mesmo respeito.

Não vim converter ninguém. Não vim relativizar tudo. Vim mostrar que cada tradição religiosa é uma tentativa humana de colocar em palavras o que as palavras não alcançam.

E que o espanto diante dessa tentativa — em todas as suas formas — é, talvez, a forma mais honesta de fé que existe.”